
Repercussão da homilia de Dom Orlando Brandes reacende debate sobre religião e eleições; enquanto arcebispo falou em consciência, bem comum e soberania sem citar candidatos, líderes evangélicos declararam apoio explícito e participam de articulações eleitorais abertamente tudo em nome da fé
A recente repercussão de uma homilia de Dom Orlando Brandes, arcebispo emérito de Aparecida, colocou novamente no centro do debate uma velha e incômoda questão brasileira sobre a bolsonarização dos templos religiosos.
Líderes religiosos se esmeram em falar de política onde a FÉ é transformada em instrumento eleitoral, mas diferenciam o julgamento quando quem ocupa o púlpito é católico ou evangélico.
Dom Orlando Brandes
A fala de Dom Orlando ocorreu durante a missa de 7 de Setembro no Santuário Nacional de Aparecida e voltou a circular com força nas redes sociais nas últimas semanas. O religioso mencionou as eleições, pediu que os brasileiros votassem segundo a própria consciência e pensando no bem comum e defendeu a SOBERANIA NACIONAL nacional diante de interferências estrangeiras.
Dom Orlando não citou Lula, muito menos Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato extremista de direita que está conspirando contra a Nação. Também não mencionou partido político nem pediu voto para uma candidatura específica.
Ainda assim, sua manifestação foi imediatamente transportada para o campo da disputa eleitoral. A defesa da soberania nacional, tema também explorado politicamente pelo presidente Lula nesta campanha, foi interpretada por setores das redes sociais como uma tomada de posição política.
Púlpito dos evangélicos
O debate ganha outra dimensão quando se observam episódios envolvendo as lideranças evangélicas. Em maio, por exemplo, Flávio Bolsonaro participou de um culto da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, no Rio de Janeiro, comandado pelo pastor Silas Malafaia.
O então pré-candidato e aliados foram chamados ao altar, participaram de oração e Malafaia sinalizou apoio à candidatura presidencial do senador. Meses depois, o próprio pastor declarou publicamente apoiar o bolsonarista e chegou a divulgar vídeo pedindo votos ao candidato.
Pedido explícito de voto
Em outro episódio, registrado durante a articulação eleitoral deste ano, Flávio Bolsonaro esteve na Assembleia de Deus Ministério do Belém, onde foi levado ao palco pelo pastor José Wellington Bezerra da Costa, que fez uma oração pedindo que o senador fosse eleito presidente.
Também em março, durante um evento político na Paraíba, um pastor orou por Flávio Bolsonaro e declarou, em um chamado “ato profético”, entregar “o Brasil e o futuro” ao pré-candidato.
Campanha nos cultos
Os episódios permitem uma comparação objetiva: há manifestações religiosas em que candidatos são nominalmente apoiados, abençoados ou apresentados diante de fiéis. Isso vai além do que ocorreu na fala de Dom Orlando, que não indicou candidato.
Os próprios evangélicos rejeitam campanha no culto. Boa parte dos evangélicos não aprova a transformação das igrejas em palanque. Levantamento publicado pela Folha em março mostrou que cerca de 75% dos evangélicos entrevistados rejeitavam campanha eleitoral dentro das igrejas.
Outro levantamento do Datafolha, divulgado em julho, mostrou que 67% dos brasileiros disseram que líderes religiosos não teriam nenhuma influência em seu voto para presidente; apenas 23% admitiram muita ou alguma influência.
Ou seja, questionar o uso eleitoral dos púlpitos não significa questionar a religião evangélica. A resistência à mistura entre fé e campanha existe inclusive dentro das próprias igrejas.
O que diz a Justiça Eleitoral
A legislação e a jurisprudência oferecem um parâmetro importante. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) considera templos religiosos bens de uso comum para efeitos da legislação eleitoral. Por isso, manifestações de campanha dentro desses espaços podem configurar propaganda irregular.
Em decisão de março de 2026 referente às eleições municipais de 2024, o TSE reiterou que manifestação de apoio a candidatos dentro de templo religioso pode caracterizar propaganda eleitoral irregular mesmo sem pedido explícito de voto, dependendo das circunstâncias.
A Corte também possui precedentes envolvendo utilização de templos para pedido de votos, distribuição de propaganda e mobilização de membros de igrejas em favor de candidaturas.
Ao mesmo tempo, falar de valores sociais, democracia, pobreza, soberania, meio ambiente, direitos humanos ou participação política não transforma automaticamente uma manifestação religiosa em propaganda eleitoral.
A diferença fundamental está no contexto, na forma e na existência ou não de promoção de candidatos. Seria difícil defender que padres, bispos, pastores, rabinos ou qualquer outro líder religioso devam permanecer em silêncio sobre assuntos públicos.
As religiões sempre dialogaram com temas políticos e sociais. Escravidão, fome, desigualdade, guerra, aborto, direitos humanos, segurança, família e liberdade religiosa são questões que atravessam simultaneamente a fé e a política.
Soberania Nacional
Se orientar o eleitor a votar conforme sua consciência, pensar no bem comum e defender a soberania nacional for considerado uma interferência política inadequada, qual deve ser então o tratamento dado a líderes que levam candidatos ao altar, declaram apoio nominal ou pedem abertamente sua eleição?
O que precisa ser observado, sobretudo durante uma campanha eleitoral, é se a mesma régua usada para examinar a manifestação de um arcebispo também é empregada quando um pastor transforma o púlpito em espaço de apoio a uma candidatura.
Ou o Brasil ainda precisa estabelecer, sem dois pesos e duas medidas, onde termina a liberdade religiosa e onde começa a campanha eleitoral.




