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Índios yanomamis apostam no turismo para afastar ameaça de garimpo

Pesquisadores cumprimentam caçadores yanomamis em ritual na aldeia Maturacá-Foto: Divulgação

A montanha, próxima à fronteira com a Venezuela, deve receber os primeiros grupos de turistas até o fim do ano. A atividade será gerida por comunidades do povo yanomami, cujo território se sobrepõe a boa parte do Parque Nacional do Pico da Neblina.

A BBC visitou aldeias yanomamis da região de Maturacá em novembro, quando acompanhava uma expedição pioneira de biólogos da USP ao Pico da Neblina – chamado pelos indígenas de Yaripo.


As comunidades ficam a alguns dias de caminhada do pico e são vizinhas do 5º Pelotão Especial de Fronteira, uma base do Exército dentro da Terra Indígena Yanomami.

Dezenas de homens e mulheres foram treinados nos últimos anos para receber os turistas, iniciativa apoiada pelo Instituto Socioambiental (ISA) e órgãos do governo.

As comunidades esperam que o turismo dê mais autonomia às comunidades e afaste os apelos do garimpo, que já deixou sequelas na região.

Território yanomami sofreu grande invasão de garimpeiros nos anos 1980-Foto: Divulgação

Invasão garimpeira

Nos anos 1980, dezenas de milhares de garimpeiros invadiram o território yanomami em busca de ouro. Muitos foram expulsos, mas a atividade jamais foi totalmente erradicada.

A trilha que dá acesso ao pico passa por vários antigos locais de garimpo. A mineração desviou riachos e provocou o surgimento de lagos e praias de pedregulhos. Em alguns garimpos desativados há décadas, a vegetação começa a se regenerar.

O Exército disse à BBC que a região está livre de garimpo há um bom tempo. Porém, nossa equipe encontrou sinais de atividade recente em alguns acampamentos de garimpeiros, como pilhas descartadas e uma embalagem de comida fabricada em 2016.

Pico da Neblina fica dentro do território yanomami, perto da fronteira com a Venezuela-Foto: Divulgação

Em Maturacá, mulheres yanomamis relataram que garimpeiros têm oferecido 21 gramas de ouro (o equivalente a R$ 3 mil) a indígenas para que levem comida até um garimpo do lado venezuelano da fronteira.

O acesso ao local é feito a pé pela mesma trilha que dá acesso ao Pico da Neblina. Há relatos sobre a presença de garimpeiros de São Gabriel da Cachoeira (AM) na área.

O ouro circula pela região livremente. Numa loja vizinha à base do Exército em Maturacá, é possível comprar mercadorias com o metal, pesado numa balança sobre o balcão.

Analista do ICMBio (órgão federal que gere o Parque Nacional do Pico da Neblina), Flávio Bocarde diz que o garimpo é um fator de “grave erosão cultural” na região.

“O pai fica fora da casa por longos períodos, deixando para trás a mulher e os filhos. Quando começa a negociar só com ouro, passa a vendê-lo em troca de comida, o que altera totalmente sua relação com a alimentação. A caça e a agricultura tradicional são abandonadas”, afirma.

A atividade também gera o risco de contaminação por mercúrio, normalmente usado pelos garimpeiros para identificar o ouro.

Em 2016, um estudo do ISA em parceria com a Fiocruz e a FGV (Fundação Getúlio Vargas) revelou índices preocupantes de contaminação por mercúrio em aldeias yanomamis próximas a garimpos em Roraima.
Numa delas, o índice de moradores com altos níveis de mercúrio no sangue chegou a 92%.

Pesquisadores cumprimentam caçadores yanomamis em ritual na aldeia Maturacá-Foto: Divulgação

A substância está associada a problemas motores e neurológicos, perda de visão e danos em fetos.

‘Velhos tempos’

Em Maturacá, muitos yanomamis dizem esperar que o turismo afaste de vez os garimpeiros.

“Nos velhos tempos, eu mesmo pensei que nosso futuro estava no garimpo”, diz Salomão Mendonça Ramos, um dos yanomamis à frente do projeto de turismo.

“Ainda há algumas pessoas que garimpam um pouco, sem danificar a natureza. Esperamos que essas pessoas deixem de lado esse trabalho sem futuro e se juntem ao ecoturismo”, ele afirma.

O Pico da Neblina já recebeu turistas, mas as expedições costumavam ser organizadas por agências externas, modelo que estava gerando conflitos nas comunidades. Agora, os próprios yanomamis administrarão a atividade.

“O pagamento era muito pequeno. Agora queremos que os turistas paguem mais, para que possamos melhorar a vida das famílias dos guias e carregadores”, completa Ramos.

Fonte: BBC

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