Irreverente e ácido, jornal ‘Charlie Hebdo’ é célebre por publicar duras críticas ao Islã

Cartunistas Tígnous(E) e Cabu(D), em reunião, em 2011/Foto: AFP

Cartunistas Tígnous(E) e Cabu(D), em reunião, em 2011/Foto: AFP
Cartunistas Tígnous(E) e Cabu(D), em reunião, em 2011/Foto: AFP

Provocador e de extrema esquerda, o semanal “Charlie Hebdo”, se define, em seu próprio site, como um “jornal satírico e social, sem anúncios, que chega todas as quartas-feiras à sua banca de jornal”. O veículo francês, com sede em Paris, traz sempre muitas charges, reportagens e piadas polêmicas.
O jornal segue a tradição de um jornalismo francês extremamente crítico, que remonta à imprensa que denunciava os excessos de Maria Antonieta no período pré-Revolução Francesa. E, se no século XVIII, o alvo era a família real e a corrupção na corte em Versalhes, a mira do “Charlie Hebdo”, hoje, está voltada para políticos, banqueiros e líderes religiosos.

Com tom irreverente, o jornal costuma publicar críticas à extrema direita e ao fundamentalismo religoso, seja o islâmico, o católico ou o judeu. O ponto de vista da revista reflete “todo o pluralismo da esquerda, e até mesmo os abstêmios”, como disse o editor Stephane Charbonnier, conhecido como “Charb”, em entrevista ao jornal suíço “Le Courrier”, em 2010.

O veículo já sofreu graves consequências por suas críticas ácidas ao Islã. A sede do “Charlie Hebdo” foi alvo de um incêndio criminoso em novembro de 2011, após o jornal ter publicado uma imagem do profeta Maomé em sua capa. Sem em nenhum momento abrandar suas críticas, o veículo voltou a sofrer um atentado terrorista nesta quarta-feira. Pelo menos 12 pessoas morreram e dez ficaram feridas em um ataque a tiros em seu escritório em Paris.

Enquanto alguns veículos chamam a decisão do semanário de zombar do profeta Maomé de “corajosa” ou “uma questão de princpíos”, outras publicações consideram algumas charges e artigos “perigosamente irresponsáveis”.

Lançado em 1969 pela equipe de um outro jornal satírico — o Hara-Kiri —, “Charlie Hebdo” circulou regularmente na França até 1981. Por não ter, por escolha, nenhum anunciante, a receita da companhia vem inteiramente de seus compradores e assinantes, o que, muitas vezes, gera problema financeiros para a firma. O “Charlie” voltou à ativa em 1992, quando a primeira edição da nova fase vendeu 120 mil exemplares. A tiragem foi crescendo gradualmente até atingir 140 mil cópias em 2006, antes que as vendas começassem a cair: cerca de 55 mil cópias vendidas em 2009 e 50 mil em 2011.

A redação conta com cerca de 20 ilustradores e 30 redatores e colunistas regulares ou ocasionais. O editor-chefe, Charbonnier, e os desenhistas Cabu, Wolinski e Tignous estão entre os mortos no atentado da manhã desta quarta-feira. A equipe costumava se reunir às quarta-feiras no escritório para decidir os assuntos da semana.

Em sua edição de 8 de fevereiro de 2006, o “Charlie Hebdo” publicou um grande debate sobre a liberdade de expressão que incluiu doze caricaturas do profeta Maomé. De acordo com os preceitos do Islã, representar Deus ou o seu profeta é uma blasfêmia. Originalmente publicado em setembro de 2005 no diário dinamarquês Jyllands-Posten, os desenhos provocaram protestos violentos no mundo muçulmano.

Já em 2011, o semanário voltou a despertar a fúria dos fundamentalistas ao publicar uma edição especial em que o profeta Maomé aparecia na capa. Mesmo antes do lançamento do jornal, sua sede foi devastada por um incêndio criminoso, na madrugada de 2 de novembro.

Uma curiosidade: o nome “Charlie” não é uma referência ao presidente francês Charles de Gaulle, mas ao fato de que, originalmente, o jornal também publicava as tirinhas do personagem americano Charlie Brown.(O Globo)

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