Mãe – Por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

Todos os amores são vitais e indispensáveis. Se não, como explicar a sensação de morte, quando eles se vão? Mas esses amores, que quando eclodem, mudam nossos referenciais, e na alucinação de cada descoberta nos transformam outra vez em adolescentes inseguros e sonhadores, esses amores são todos condicionais. Eles dão, mas cobram reciprocidade, e só não pedem comprovante porque ainda não se elaborou um formulário adequado para isso. E cada descumprimento deste contrato não escrito implicará uma sentença oscilando entre a indiferença e o ódio, que só os otimistas e os ingênuos não percebem que é a mesma coisa.

Esse amor por ser assim condicional, e depender da facilidade de seus pobres atores, tem uma escassa chance de ser intenso e duradouro, porque quanto mais intenso, menos espaço concederá ao perdão. Provavelmente por isso, quando os grandes amores terminam, não sobra nada, e podem desconfiar da intensidade de um amor que acabou numa grande amizade. Ou não era amor, ou não era tão grande, ou tem alguém ainda amando em segredo, na expectativa desesperada de que o outro, por favor, perceba isso. E não vale citar exemplos de amores sobreviventes de muitas brigas, porque o perdão sempre é parcial e fica arquivado para ser ressuscitado inteiro em cada nova rusga, da qual talvez sobreviva outra vez, mas sempre remendado e melancolicamente menor.

Nisso tudo contrasta o amor de mãe, que sem ser menos intenso, é o único que não tem vergonha de ser absolutamente incondicional.

O único amor que sobrevive intacto à indiferença, ao descaso e à traição, simplesmente porque estando acima dessas miudezas da alma humana, nunca será de fato ameaçado por elas. Ofenda a sua mãe e ela soluçará como uma namorada, mas quando as lágrimas secarem, ela já estará se sentindo um pouco culpada pelo desamor do filho e buscando um jeito de reconquistá-lo. Esse é o amor padrão da imensa maioria das mães, que idolatram filhos imperfeitos e explicam atitudes inexplicáveis, e são capazes de dar a vida pelos seus filhotes medíocres, mas maravilhosos.

Ser mãe é ficar emocionada com os movimentos anárquicos daquele corpúsculo disforme na ecografia e depois chorar de pura emoção ao receber aquele anteprojeto gosmento e mal-acabado, de cara torta e assustada, e tão lindinho! Ser mãe é dobrar com carinho as suas roupas de recém-nascido e se estremecer ao lembrar o inesquecível cheiro de bebê que você um dia teve no pescoço, não importa quanto tempo já tenha passado.

Ser mãe é não pregar o olho nas infindáveis madrugadas e depois fingir que dorme placidamente quando você finalmente retorna, barulhento e despreocupado. Ser mãe é perceber a tristeza do filho por trás do sorriso disfarçado e intuir que alguma coisa está errada quando o machão independente reaparece com cara de filho extremado.

Ser mãe é sublimar o ranço ciumento da nora ou genro para manter o rebento por perto, e suportar em silêncio a repetição dos erros que ela própria cometeu, para não parecer intrometida. Ser mãe é doar um órgão para salvar o filho doente, e ser operada, e não usar nenhum analgésico, como se a queixa de dor pudesse minimizar o tamanho do seu gesto.

Ser mãe é oferecer um pulmão inteiro para tentar recuperar a filhota linda, e, ao ser informada que isso não seria possível porque colocaria em risco a sua própria vida, perguntar: “E viver para que, sem a minha filha?” Ser mãe é ser capaz de tudo isso e ainda ter que suportar a ironia dos engraçadinhos que parecem se divertir sugerindo que gostam mais do pai.

Nesse mundo de generosidade ameaçadas, que tal fazer do dia das mães uma homenagem ao amor incondicional? Diga isso à sua mãe neste 12 de maio e receberá dela um sorriso que só uma mãe sabe sorrir. E, quando ela te abraçar agradecida, tenha a certeza que a alegria que ela estará sentindo se misturará generosamente com o doce perdão pela sua derrota em perceber a incondicionalidade do seu amor de mãe. Se não confiar no discurso, leve também um presentinho, mas não se iluda, quando ela afagar dissimuladamente o pacote, gostaria mesmo de estar acariciando o coração do menino que ela sempre amou mais do que a ela mesma, sem sentir necessidade de confessar para ninguém!

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

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