TCEAM
Início Carlos Santiago O grafite é arte ou mera poluição visual? – por Carlos Santiago

O grafite é arte ou mera poluição visual? – por Carlos Santiago

Carlos Santiago é Sociólogo, Analista Político e Advogado

O documentário Cidade Cinza (2013), aborda muito bem o conflito do mundo de hoje sobre o significado de arte. A contribuição do grafite nesse embate, deixa exposto que arte pode não está somente em museus e em galerias sofisticadas, mas que pode ser encontrada nas ruas. Ensina que o fazer arte não precisa de formação acadêmica, além de mostrar nos depoimentos de pessoas humildes os mesmos argumentos e debates filosóficos envolvendo o significado de arte. Indica que as cidades são espaços de encontros de culturas expressas nas artes oficiais e nas marginalizadas. Alerta sobre a necessidade de buscar o sentido de arte sem poluição visual, um argumento da Prefeitura de São Paulo contra a pichação. Então, qual será o limite entre arte e pichação?

O filme traz personagens centrais como os grafiteiros Otávio e Olavo (Os gêmeos); o Nunca (Francisco Rodrigues); a Nina Pandolfo e outros. Todos respeitados em vários países, entre eles, os Estados Unidos da América, a Alemanha, a França e a Inglaterra, além do Brasil. O Cidade Cinza foca, ainda, em autoridades públicas como o prefeito da cidade de São Paulo, na época, Gilberto Kassab, e o secretário de Coordenação das Subprefeituras, Andrea Matarazzo, além de trabalhadores terceirizados da Prefeitura que retiram as pinturas dos muros e dos viadutos.


Em 2006, na gestão de Gilberto Kassab, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou a Lei Municipal nº. 14.223/06, denominada de Cidade Limpa, o que levou o Poder Público a contratar empresas para retirar pinturas de prédios públicos e de bens privados usando cimento cinza, objetivando combater a poluição visual na cidade.

Porém, a legislação não caracterizou o que é arte e o que é poluição visual. Por conta disso, o Poder Público apagou imagens feitas por grafiteiros, causando um grande debate público que envolveu os grafiteiros, a Prefeitura, os comerciantes da região central e uma parcela significativa da população que aprovava os desenhos.

O debate sobre o que é arte não é novo. O filósofo moderno Kant (1724-1804) entendeu a arte a partir da produção livre e racional. E se “tem por fim imediato o sentimento do prazer, é arte estética”. O filósofo alemão Schiller (1759-1805) acreditava que a arte era instrumento educativo para construir sentimentos humanos libertários. Segundo Hegel, a arte seria a “expressão sensível da ideia e implica um momento fundamental de reconciliação do espírito com a sua efetividade e história”.

O filósofo Walter Benjamin (1892-1940), defendia que a reprodução da obra de arte ganhava popularidade e aproximava o indivíduo da obra. Entretanto, a obra de arte perde a sua aura, a “existência única”. O filósofo Theodor Adorno (1903-1969) defendia que a reprodução da obra de arte pelo capital representava a dominação e a alienação social, econômica e cultural.

E nos dias atuais, o grafite é considerado uma arte visual dos centros urbanos ou tão somente uma contravenção? No documentário, a mãe dos gêmeos diz que o grafite é identificado no Brasil como algo marginal. Os gêmeos afirmam que essa arte é a externalidade do “ódio e do amor” e que grafite como arte, é reconhecida fora do Brasil. É a representação do caos e São Paulo é o caos que deve ser refletido no grafite, disse Fábio Cypriano. O grafite pode ser captado como uma arte de rua que faz transgressão.

A Nina afirma que o grafite é a arte da comunicação direta, independentemente da classe social, e com a finalidade de um bem da coletividade. Os gêmeos dizem que o grafite é a expressão do jovem e o “único movimento em que os jovens falam”.

O Nunca afirma que a cidade é um bom ambiente para fazer arte livre que é o grafite. Nos diálogos entre os funcionários terceirizados da Prefeitura fica a impressão que a arte pode ser entendida a partir da subjetividade de cada um. Os gêmeos acreditam que o grafite também pode representar a identificação do indivíduo no meio da multidão.

Pois bem. Talvez nem exista uma fronteira entre a pichação e arte. Talvez o conceito filosófico clássico de arte nem tenha mais sustentação. Mas um fato no documentário chamou-me atenção. A incapacidade dos administradores públicos de dialogar com a sociedade e entenderem que o mundo é diverso, plural e com diversas formas de expressão.

Carlos Santiago é Sociólogo, Analista Político e Advogado.

Artigo anteriorDavid Almeida lança novo programa “Morar Melhor” ao lado de Eduardo Braga
Próximo artigoInpa vive crise de pessoal e entidades pedem concursos para nível médio

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Correio da Amazônia
Visão Geral de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.