Palavrões alimentam o desejo de matar – por J. Rosha

Jornalista, radialista, indigenista José Rosha - foto: divulgação

Termos chulos e de baixo calão fartamente pronunciados por Bolsonaro e seus ministros é como capim para o gado.

É parte da narrativa que alimenta o fanatismo e a sanha fascista e, com maior gravidade ainda, acende o pavio de uma aventura belicista que ficou evidente numa das falas do presidente durante a reunião do dia 22/04 publicizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Foram muitas as intenções ali expressas de forma direta, sem rodeios, mostrando que os membros do governo querem passar por cima de todas as leis para por em prática um plano de destruição do país. Até aqui, nenhuma novidade. Estão fazendo isso desde 2016. Já entregaram o pré-sal a ávidas companhias estrangeiras, cortaram verbas de programas sociais e de outros setores fundamentais.

Dois aspectos chamaram mais a atenção. O primeiro diz respeito às falas dos ministros Paulo Guedes, da Economia, e Ricardo Sales, do Meio Ambiente. Enquanto o primeiro defende o uso da máquina governamental para ganhar dinheiro com as grandes empresas, desprezando as pequenas, Sales defende a ideia de aproveitar o tempo da pandemia do Coronavírus para avançar na ocupação da Amazônia.

O plano dele em parte está dando certo. O isolamento social a que todos estamos submetidos e outras restrições para evitar a proliferação do contágio por Covid-19 estão estimulando atividades ilegais na Amazônia. Registro do sistema Deter-B, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aponta que os alertas de desmatamento na região Amazônica cresceram 63,75% em abril de 2020, na comparação com o mesmo período do ano passado. Na Câmara dos Deputados, graças à mobilização popular, foi suspensa a votação do PL 2633 que era um desdobramento da “MP da Grilagem”.

O segundo aspecto denuncia uma intenção ainda mais perversa e foi pronunciada pelo próprio presidente. Não foi a primeira vez que Bolsonaro falou em armar a população. Isso foi até uma dos motes de sua campanha e, em alguns momentos, a sequência do discurso era exterminar esquerdistas.

Não é a população que o presidente quer ver armada. Ele quer facilitar o acesso de armas a milícias e levar adiante o plano de atirar o País em uma aventura belicista. Seus seguidores, pelo Brasil a fora, falam em retorno da ditadura militar, do AI-5 e coisas do tipo.

Com mais de dois mil militares em todos os escalões do governo, não é uma ditadura militar que estão planejando. É uma guerra civil. As entrelinhas do discurso do presidente foram preenchidas pelo general Augusto Heleno em nota apoiada por militares da ativa e pelo ministro da Defesa.

Essa nota foi reforçada por militares da reserva, egressos da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman) que assinaram nota em apoio ao ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno. Na nota os reservistas são taxativos em apontar para a possibilidade de “guerra civil”.

O termo expresso na nota agrega-se às imagens e acontecimentos que nos últimos meses falam por si só: neofascistas acampados na Praça dos Três Poderes escondendo armas e ameaçando as instituições, deputado reconhecidamente corrupto posando com fuzil “para matar esquerdistas” e uma claque especializada em disseminar ódio pelas mídias sociais.

Não é, portanto, com os palavrões que devemos nos preocupar. É o que está sendo dito de forma sorrateira e que é muito bem assimilado pela massa de sustentação do desgoverno.

J. Rosha é jornalista e assessor do Cimi

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