REDES SOCIAIS: alfinetadas descabidas – Por Garcia Neto*

Professor Garcia Neto
Professor Garcia Neto
Professor Garcia Neto

“Alguém pode ser o maior lutador, um grande professor, mas jamais será um Mestre se não puder ser um exemplo de vida”. (Grão-mestre Roberto Leitão)
Tida como ferramenta de comunicação mais abrangente, as redes sociais surgiram da necessidade do ser humano compartilhar com o outro um interesse em comum, um ideal ou uma preferência, de criar laços sociais que são norteados por algumas afinidades entre si. Com a revolução tecnológica a relação pela rede está mais exposta, por conta de posteres indesejáveis, e maioria dos usuários – mais impulsivos – despreza a proposta básica desses modelos de comunicação para fazer novos amigos e novos aprendizados. Mesmo apelando para o bom senso, é impossível fazer valer a liberdade de expressão. Importante saber, também, que a liberdade de um termina onde começa a do outro. A liberdade de expressão é um direito fundamental, mas não é absoluto, e não pode ser usado para justificar a violência, a difamação, a calúnia, a subversão ou a obscenidade.
Para o momento cabe o aviso: “Se for falar dos outros, não poste e nem compartilhe, guarde pra você ou se comentar, comente somente para um amigo”. Fazendo a leitura das diversas postagens, percebe-se intervenções que passam longe do bom senso e da civilidade, que vão desde comentários agressivos e desrespeitosos a moderados ou conciliadores. Poucos são os que seguem as recomendações do nosso famoso Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014), que propõe um equilíbrio entre as garantias constitucionais de proteção da liberdade de expressão e de proteção da intimidade, da honra e da imagem das pessoas.

 

Entre inúmeras postagens de interesse comum, uma me chamou atenção pela reprimenda pública desnecessária de um professor de Luta Livre Esportiva, em Manaus, conhecido por “Sonic”, a um compartilhamento no Facebook de um praticante de jiu jitsu a outro da luta livre, plantado pelo jiujiteiro no dia 16 de março de 2015, em que considerava produtivo “o treino de jiu jitsu com o mestre M.” (Vou manter as iniciais dos nomes dos atores envolvidos para preservar suas identidades). O gesto de gratidão gerou intervenções positivas de amigos, a exceção do professor que mostrou-se surpreso ao afirmar que “não sabia que o M. já é mestre faixa marrom nunca foi mestre até no jiu jitsu faixa marron não é mestre só quem é mestre é faixa preta e isso ele não é”. A postagem sobre o treino produtivo nos remete à forma de reconhecimento e respeito de verdadeiros atletas de artes marciais distintas e disciplinados, o que, na visão de “sonic” é horroroso, mórbido.

 

Sem desconsiderar o escrever mal e porcamente do professor “sonic”, pretendo, sim, fazer um breve recorte sobre a acepção do ser faixa preta e do ser mestre, enfatizando, desde já, que nem todo faixa preta pode ser considerado mestre. Maioria dos atuais faixas pretas desconhece todo o encanto de um rigor tradicional e milenar que deveria ser respeitado, por ser um título de difícil acesso ou conquista. Atualmente, podemos encontrar faixas pretas em qualquer lugar, entre os quais, na sua grande maioria, apresentando comportamento incompatível com o grau adquirido, sem se aperceber da necessidade de uma reavaliação de seus maus hábitos e erros do passado, que impedem chegar próximo do equilíbrio, do autocontrole e da disciplina.

 
Em nome dos valores morais e éticos das artes marciais, no Amazonas duas escolas de Luta Livre buscam por esses fundamentos. A do professor e advogado José Falabella Netto tenta manter a disciplina no dia a dia de sua academia para o viver melhor de cada atleta. Tentando seguir o mesmo caminho, a do professor “sonic” parece não conseguir uma relação de harmonia e equilíbrio familiar entre seus alunos e a arte da luta livre. Alunos mais disciplinados não acreditam que a escola de “sonic” venha a ser, um dia, o local ideal para ensinamentos mais profundos, de superação e transformação do ser humano, pela carência de um verdadeiro Mestre no comando dos treinos.

 

Importante esclarecer que, na Luta Livre Submission só pode ser considerado Mestre aquele que se graduou 4º e 5º Dan a partir dos 40 anos de idade, e Grão-mestre a partir do 6º Dan. Portanto, nem “sonic” e nem sua mulher J. G. podem ser reconhecidos como Mestres em nenhum tipo de evento esportivo. Neste sentido, cabe enfatizar a bela lição do aluno M. (que não é faixa preta e tampouco mestre) em reconhecer que “Mesmo eu, não sendo a favor que me chamem de mestre, respeito a todos e guardo um carinho grande por quem me considera como tal”. Isto é o suficiente para mostrar o alto grau de maturidade, integridade, autodomínio e espírito indomável de M., e que parece incomodar a quem não consegue ter o respeito pelas concepções alheias.

 

A pessoa que se incomoda com o sucesso do outro carrega consigo um sentimento de inferioridade provocado por uma baixa auto-estima. Há que se convir que, entre inúmeras alfinetadas desnecessárias pelas redes sociais, cabe a prática do respeito e da compreensão ao outro como aprendizado, que se inicia a partir de pequenas ações.
Deixar de se incomodar tanto com postagens entre amigos em comum já é um bom começo.

 

* Garcia Neto é professor e jornalista

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