A mulher que faleceu procurando o filho na Ditadura – por Carlos Santiago

Carlos Santiago é Sociólogo, Analista Político e Advogado

Ainda criança, ela olhava atentamente e com admiração a sua mãe costurando roupas para comprar alimentos, e com os retalhos das sobras dos tecidos, confeccionava e vestia os seus brinquedos.

Foi de uma grandeza em vida. Amorosa, talentosa, corajosa e ousada. Morreu num obscuro acidente de automóvel depois de passar anos enfrentando uma Ditadura Militar para reencontrar o maior amor de uma mãe, o filho.

Casou-se jovem com um cidadão americano. O casal gerou um filho e duas filhas. Ela deu continuidade ao talento da mãe. Foi costureira na periferia das cidades de Salvador e Rio de janeiro. Como estilista de moda, refletiu as alegrias, as cores, a fauna e flora do Brasil nas roupas que produzia. Os pássaros, as árvores e as montanhas ganhavam destaques.

A separação do marido não lhe abalou. Mostrava ser uma mulher diferente num país de tradição patriarcal. O seu trabalho, o amor pela vida, a sua inteligência e os modelos ousados ganhavam admiração do mundo, com exposições na Europa e nos Estados Unidos das Américas.

Porém, tinha uma profunda tristeza no coração e muita coragem para denunciar a Ditadura Militar que levou seu filho. Uma mãe que gritava, chorava, não dormia, pensava horas sobre o filho, lembrando das brincadeiras dele, e buscando desesperadamente ajuda para encontrá-lo.

Eram tempos de arbítrio. Jovens torturados e mortos, opositores presos, imprensa censurada, partidos políticos e entidades estudantis na clandestinidade. O povo não tinha liberdade de expressão, pessoas eram vigiadas e os mandatários biônicos odiavam o voto popular.

Mas eram também tempos de resistências. Mesmo proibida, havia lançamento de candidatura de contestação à presidência da República; os artistas faziam encenações críticas e assinavam documentos questionando o sistema de governo, músicas com críticas aos ditadores eram compostas, jornais alternativos desnudavam os malfeitores e mobilizações populares a favor do retorno da democracia eram realizadas.

Stuart Edgart Angel Jones, o seu filho, estudava no Curso de Economia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi bicampeão de Remo pelo clube do Flamengo. Tornou-se membro do MR-08, um grupo de resistência ao Regime Militar. Foi preso em 1971 por membros da Aeronáutica, torturado e morto. Testemunhas afirmam que ele foi visto sendo arrastado por uma viatura militar, com a boca no escapamento do carro, nunca o corpo foi encontrado.

Zuzu Angel apelou para o presidente militar, fez um desfile de protesto na embaixada do Brasil em Nova York, denunciou ao Congresso Nacional dos Estados Unidos das Américas e ao mundo o desaparecimento do seu filho. Perseguida, chegou a escrever carta afirmando que poderia morrer a qualquer momento por causa da sua luta contra o desaparecimento dele.

Em 1976, ela morreu num acidente estranho de carro, no Rio de Janeiro, sem agasalhar novamente o filho, como diz a canção Angélica de Chico Buarque: “Só queria agasalhar meu anjo e deixar seu corpo descansar”.

Assim como ela, outras centenas de filhos, mães e pais choraram e morreram sem saber os destinos dos seus amores desaparecidos durante a Ditadura. Recentemente, numa sessão da Comissão da Verdade, colaboradores do arbítrio confessaram a participação de agentes do Estado na morte de Zuzu Angel e do seu filho.

O Regime Militar acabou em 1985. O país não suportava mais tanta censura, tanta pobreza, tanta violência e muita incompetência. Zuzu Angel tem um nome na história do País. É nome de obras públicas. O seu filho tem um busto na sede do Flamengo e na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Hoje, vivemos numa democracia conquistada com lutas, protestos e também com lágrimas, coragem e histórias como a de Zuzu Angel e do filho.

Carlos Santiago é Sociólogo, Analista Político e Advogado.

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