
Mais um “feliz natal”, fundamentado nos mesmos quid genitus de décadas cultuados pelas comunidades cristãs. Ou seja, deveria ser uma data festiva a revelar o novo caminho de reconciliação e a mais “profunda invasão do amor de deus na vida humana”, a contrapor-se à religiosidade vazia e ao mercadejo do feriado. Na verdade, o natal tem o foco na experiência contínua do nascer de novo para um novo caminho, marcado por uma mudança de era e de vida, capazes de se viver o amor, a paz e a fé religiosa.
Novamente o amor reaparece redivivo na mente das pessoas – do bem e do mal -, um termo transformado em mais um simbolismo histórico da humanidade nos tempos atuais no famigerado mercantilismo, que o transformou em um evento superficial de fim de ano capitaneado pela figura grotesca do “papai-noel” natalino.
Como peça central durante esse período, pode-se apreciar os mais variados modelos de amor, entre eles o de mãe, o de parceria de casais, o de políticos, o religioso, o social, o educativo, o comercial. Nesse segmento, o que mais considero real é o amor de mãe, tão bem delineado pelo grande poeta quando ele lamenta que, de tão grande e belo, o destino permite que um dia as mães vão se embora. É evidente que o amor de mãe não tem limite, é uma luz que não se apaga, mesmo diante do sopro de forte do vento ou de uma chuva torrencial.
O amor de parceria já envolve a intimidade, o compromisso, a confiança, principalmente o respeito, a cumplicidade e companheirismo, um composto capaz de enfrentar desafios e celebrar a vida juntos até à eternidade. Já o religioso envolve o diabólico mercadejo da fé, ao invés de questionar o fanatismo religioso e a crença ingênua em bondade ou previsibilidade divina, defendem uma moralidade baseada na razão e na compaixão, não no sentido mais amplo.
Quanto aos demais modelos de amor, o mais ridículo é o de políticos, que tem como princípio fundamental o dogma da mentira e da desfaçatez. Conforme revelam os fatos, o mais emblemático nos dias atuais é o amor do clã bolsonarista, cujos membros suplicam por orações para manter vivo a imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro; pregam a união dos “patri-idiotas” para a incitação a crimes hediondos; defendem a anistia geral e irrestrita para favorecer o ex-presidente condenado pela prática de vários crimes, entre os mais graves o de colapso de oxigênio em Manaus, crimes contra povos indígenas, o crime de homicídio comissivo por omissão no enfrentamento da pandemia.
A ex-primeira dama Michelle Bolsonaro, em sua mensagem natalina deste ano, pediu para que todos “continuem firmes” perante as dificuldades e para que todos continuem orando por ele (Jair Bolsonaro) e por todas as famílias injustiçadas. O amor de Michelle pelo ex-presidente é forte demais diante do apelo de “me ajude a te ajudar, meu amor” é muito comovente.
Já o amor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue na prática de sua habitual política ideológica de defensor dos pobres e de um político pragmático mantendo as pautas sociais como centro de seu projeto de permanência no poder, apesar de ter enfrentado fortes suspeitas pelo envolvimento nos escândalos de corrupção do Mensalão e do Petrolão.
Na atual gestão, Lula vem atuando em manobras políticas para blindar a convocação de seu irmão José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico, vice-presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), um dos alvos alcançados pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga as fraudes no INSS.
O filho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, é suspeito de ter recebido R$ 1,5 milhão do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o ‘careca do INSS’, preso como o principal responsável pelos desvios de dinheiro dos aposentados e pensionistas do INSS. Percebe-se que o amor de Lula pelos seus parentes citados em escândalos e por si mesmo é forte, tão forte quanto ao escafandro da blindagem política para permitir a passagem de mais um feliz natal e um próspero ano novo.
Garcia Neto é professor e jornalista




