Capitão Tom Moore, temos um? – por Osíris Silva

Escritor e economista Osíris Silva/Foto: Divulgação

O capitão e cavaleiro britânico Tom Moore tornou-se celebridade mundial ao arrecadar quase 33 milhões de libras (R$ 241 milhões) para o NHS (serviço de saúde pública do Reino Unido) ao completar 100 voltas em seu jardim, no condado de Berfordshire, leste da Inglaterra, antes de seu aniversário de 100 anos, em abril de 2020. Ele morreu no domingo (31/1) de covid-19. Seu feito, contudo, impactou autoridades e a sociedade em todos os recantos da terra pelo ineditismo e determinação de seu extraordinário e comovente ato de cidadania.

Os ingleses são tidos como exímios geradores de fatos determinantes na história, muitos registrados por William Shakespeare (Stratford-upon-Avon, 1564-1616) o maior dramaturgo da literatura universal, que registrou para a posteridade a rica dramaticidade da Corte de Saint James. Em Ricardo III, rei que deixou rastro de crueldade por ter afrontado legítimos direitos familiares, descreve a derrota do soberano na batalha de Bosworth, vencida pelo conde de Richmond. Ao perder seu cavalo em plena luta, desesperado, exclama, em momento crucial, determinante para salvar sua vida e prosseguir a batalha, a célebre frase: “Meu reino por um cavalo”. Não logrou êxito, mas teve seu crânio esmagado pelos inimigos.

São conhecidas algumas frases e atos controversos nas peças do bardo inglês. “Ser ou não ser, eis a questão” e “Há algo de podre no reino da Dinamarca” chegaram a nossos dias traduzindo perplexidades próprias do ser humano, sempre inquieto em sua simultânea pequenez e grandiosidade. “Otelo, o Mouro de Veneza”, que estreou em 1604, é uma das mais comoventes tragédias do gênio da dramaturgia mundial. Ao tratar de temas universais – como ciúme, traição, amor, inveja e racismo, a peça levou para os palcos um casamento inter-racial protagonizado por Otelo, um general mouro a serviço do reino de Veneza, e Desdêmona, branca, filha de um rico senador. Como se uniram às escondidas e o genro só é aceito pelo sogro porque o casamento já está consumado, desencadeia-se na trama uma série de cuteladas e atos de traição até o trágico desfecho da peça.

O Império Britânico foi o maior da História, abrangendo, na sua máxima extensão, 23% da população mundial e quase um quarto da superfície terrestre. É considerada verdadeira a afirmação de que “o sol nunca se põe no Império Britânico”, no final da Primeira Grande Guerra (1914-1918). Não resistiu, contudo, aos efeitos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando, naturalmente, transferiu o bastão aos Estados Unidos, que passa a liderar o império ocidental em tênue equilíbrio com Rússia, e, mais recentemente, em termos econômicos, com a China. O Primeiro Ministro britânico Winston Churchill impactou o mundo com a frase que se tornou paradigma da resistência aos alemães, ao afirmar, perante o Parlamento, em 1940: “Só tenho a vos oferecer sangue, suor e lágrimas”. O resto é história.

 A atitude do Cavaleiro britânico, Sir Tom Moore, levou certamente muitos brasileiros a refletir sobre a situação ética e moral no solo nacional. Existiria hoje no país um capitão Moore? Onde, na Amazônia, se encontram nossos jacumaúbas, os guerreiros condutores dos exércitos nas batalhas, ou, na paz, de representações de dignitários de uma aldeia para participar de festejos promovidos por nações amigas?

A pandemia do novo coronavírus evidencia que não, não os temos; que, por outro lado, o Brasil abdicou de valorizar lideranças autênticas e cedeu a cantilenas de governos populistas, não raro inoperantes e corruptos, em que “povo”, como categoria abstrata, é colocado no centro da ação política, independentemente e à revelia da estrutura partidária representativa. Felizmente, o regime democrático incorporado à estrutura política nacional é, comprovadamente, mais forte e, estoicamente, vem prevalecendo. Mas, avançar, como navegar é preciso. Corrigindo, contudo, os pontos de estrangulamento que mantêm o Brasil tergiversante ante seu futuro.

Manaus, 8 de fevereiro de 2021.

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