
Empresa brasileira White Solder se torna ‘ré’ sob acusação de liderar rede de lavagem de minério em terras indígenas, provocando ação inédita do Ministério Público Federal com pedido de reparação de R$ 1,7 bilhão
O garimpo ilegal de cassiterita na Amazônia tornou-se um dos problemas ambientais e socioeconômicos mais críticos da região. Apelidada no setor como “ouro negro”, a cassiterita é a principal matéria-prima para a extração do estanho. Este metal é altamente estratégico para a indústria global de tecnologia e de armamentos, pois atua como a solda essencial para placas de circuitos e componentes eletrônicos.
O Esquema investigado pela Polícia Federal (PF) teria movimentado ao menos R$ 200 milhões. O Ministério Público Federal aponta lavagem de minério extraído de áreas protegidas e pede reparações bilionárias.
Apenas no período compreendido entre maio e agosto de 2021, a contabilidade da empresa brasileira White Solder apreendida pela Polícia Federal (PF) registrou o escoamento clandestino de mais de 525 toneladas de cassiterita, matéria-prima bruta da qual se extrai o estanho puro após processos de fundição e refino, segundo reportagem do Brasil 247.
Uma investigação do Ministério Público Federal revelou um esquema de exploração, lavagem e comercialização de cassiterita retirada ilegalmente da Amazônia que teria movimentado pelo menos R$ 200 milhões entre 2020 e 2025.
Ré é de São Paulo
A empresa brasileira White Solder tornou-se ré sob acusação de participar da receptação, refino e “esquentamento” do minério. Com sede em São Paulo e operações em Manaus e Ariquemes, a companhia teria recebido grandes volumes de cassiterita acompanhados de documentação que simulava origem legal.

Cooperativa envolvida
Parte do material teria origem em garimpos instalados na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. O esquema utilizaria notas fiscais e guias emitidas por uma cooperativa para conferir aparência legal ao produto antes de seu transporte para refinarias em Rondônia.
Em apenas cinco meses, a cooperativa investigada movimentou R$ 166,3 milhões, dos quais R$ 162,3 milhões teriam sido pagos pela White Solder. Depois do refino, a origem física da cassiterita praticamente desaparecia, permitindo que o estanho ingressasse na cadeia comercial acompanhado de documentação e certificações internacionais.
O MPF identificou ainda que a refinaria aparecia como fornecedora de estanho em documentos de grandes companhias internacionais. Dez multinacionais que atuam no Brasil foram notificadas para prestar esclarecimentos sobre seus mecanismos de controle e rastreamento da origem do minério.

Ouro e floresta devastada
A investigação também encontrou indícios de exploração de ouro e minerais estratégicos associados à cassiterita, incluindo monazita, columbita e elementos de terras raras utilizados pelas indústrias eletrônica, aeroespacial e de alta tecnologia.
Além da Terra Yanomami, o MPF aponta avanço da mineração ilegal sobre o Parque Nacional dos Campos Amazônicos, onde foram identificados 193 hectares de floresta devastados e 15 pistas clandestinas de pouso.
A Procuradoria pede indenizações e reparações que podem chegar a R$ 1,7 bilhão, considerando danos ambientais, patrimoniais e morais coletivos. Em uma das ações, também são requeridos pelo menos R$ 43 milhões por danos materiais e R$ 100 milhões por danos morais e sociais destinados ao povo Yanomami.
Um dos principais problemas revelados pelo caso é a ausência de rastreabilidade da cassiterita brasileira. A Agência Nacional de Mineração reconheceu que o país ainda não possui um sistema nacional capaz de acompanhar o minério desde a área de extração até o beneficiamento industrial.
Segundo o procurador André Luiz Porreca, atualmente não existe mecanismo específico de rastreabilidade da cassiterita no Brasil, cenário que facilita a mistura de minério clandestino com produção legal e dificulta a fiscalização de toda a cadeia.
Essas evidências foram juntadas a uma nova Ação Civil Pública movida pelo MPF contra a White Solder, a Coopertin e seus respectivos sócios para demonstrar a “reiteração delitiva”. Para a Procuradoria, a devastação na unidade de conservação comprova que a estrutura desarticulada na Operação Forja de Hefesto continuava em plena expansão.
Mesmo após as primeiras autuações, a refinaria adquiriu mais de 12 mil toneladas de cassiterita da cooperativa entre os anos de 2022 e 2024 sem a devida comprovação de origem, transportando o mineral da reserva diretamente pela BR-421 até Ariquemes.
“A pergunta que fica é como essas toneladas passam dessa maneira de uma ponta à outra até a exportação. Quem foi que ‘fechou os olhos’ para isso é o que precisamos entender”, questionou o diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário.
Com Brasil 247




