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Crianças marcadas – por Carlos Santiago

Carlos Santiago é Sociólogo, analista político e advogado.

As marcas da exclusão social, da ganância, da intolerância e dos preconceitos que são registrados nos corpos ou nas almas, marcam por toda vida e refletem também a incapacidade e a falta de humanidade dos gestores públicos no Brasil. No ano de 2017, causou-me espanto e até indignação o registro fotográfico de uma criança que teve a mãozinha marcada com caneta para que ela não repetisse a refeição numa escola pública do município de São Paulo.

A imagem, absurda, lembrou-me da escravidão negra no Brasil, em que os proprietários de escravos “timbravam” os corpos dos negros como se fossem “gados”, movidos por ganância, por total desumanidade e por preconceitos que deixaram marcas na história, na cultura, no corpo, na alma e nas relações sociais do País.


Os nazistas também “carimbavam” os corpos dos povos que eram denominados por eles como sendo de raças inferiores, antes de laçarem a morte com requinte de desumanidade, de preconceito e de ganância que marcaram negativamente a humanidade e alguns povos e nações para sempre.

Até Jesus Cristo, filho de Deus, não escapou das marcas dos chicotes nas costas e dos pregos nas mãos, com requinte de crueldade, de ganância, de intolerância e de preconceito de religiosos dos colonizadores romanos que revelaram a maldade humana nas suas profundas manifestações.

Os “carimbos” e as “timbragens” também são verbais e atingem os sentimentos e a alma do ser humano. É costumeira a referência sempre depreciativa ao trabalhador negro, ao papel da mulher no mercado de trabalho, ao indivíduo fora do padrão tradicional de família, ao aluno da escola pública, a determinada profissão e até a origem familiar ou bairro de moradia. Expressões que atingem a dignidade da pessoa humana.

O fato ocorrido com aquela criança na escola pública da cidade de São Paulo não é isolado. Acontecem em muitas regiões e em outras escolas do País. Na semana passada, outro caso veio a público. Uma criança da cidade de Americana (SP) foi obrigada a usar um uniforme cedido pela direção escolar com a expressão “empréstimo”, escrita com caneta, dentro da escola, porque a família ainda não tinha comprado a camisa escolar.

Somente dados oficias já mostram que o Brasil é um dos lugares em que as crianças mais sofrem violências psicológicas e físicas. São milhares de ocorrências. Os números desta tragédia estão disponíveis nos sites de órgãos dos governos e de entidades da sociedade civil que revelam índices que envergonham e chamam atenção para o País de hoje e do futuro.

As crianças dos episódios ocorridos em São Paulo, até pelas suas idades, ainda não sabem o tamanho dos preconceitos dos brasileiros, da ganância dos fornecedores de uniforme e de merenda escolar, da péssima gestão pública que passa o Brasil e do “vale tudo” usado pelos políticos para alcançarem e se manterem no poder, mas elas já sentiram nos corpos as marcas que refletem o Brasil do presente e de um futuro incerto.

Para o sociólogo Karl Mannhein “o que se faz agora com as crianças é o que elas farão depois com a sociedade”. Então, vamos amar as nossas crianças e o nosso futuro.

Carlos Santiago é Sociólogo, Analista Político e Advogado.

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