Dauá Puri: o poeta indígena das energias da natureza! – Por José Ribamar Mitoso


Eu e o poeta Dauá Puri, no coração artístico de Vila Isabel, no Rio de Janeiro!
Eu e o poeta Dauá Puri, no coração artístico de Vila Isabel, no Rio de Janeiro!

Como sou um escritor torto, em cujas costas largas a hipocrisia gosta de carregar as culpas do mundo, aviso logo que foi o poeta Jorge Tufic quem criou a Teoria da Literatura Amazônica.

Digo isto porque esta teoria é contaminosa, subversiva, reimosa e pode causar sífilis, tuberculose, cirrose, bipolaridade ou mal-estar mental no academicismo colonizado e nas teorias transplantadas.

Parte das etnias indígenas Pataxó, Tukano, Guarani, Puri, Apurinã, Tupinambá, Kaingáng, ..
Parte das etnias indígenas Pataxó, Tukano, Guarani, Puri, Apurinã, Tupinambá, Kaingáng, ..

Deus me livre de me responsabilizar por seus efeitos colaterais. No ensaio Existe Uma Literatura Amazonense? O poeta Jorge Tufic afirma que a crítica literária brasileira tenta captar a essência de um objeto literário amazônico com teorias e métodos europeus elaborados longe do objeto observado. Afirma, apenas como exemplo, que a teoria literária do Formalismo Russo foi construída estudando os contos populares russos e serve apenas para a interpretação destes próprios contos. Suas trinta e uma funções narrativas não devem ser procuradas nos contos populares brasileiros, na literatura dos povos indígenas, por exemplo.

Para entender a literatura de um povo, de uma cultura, é preciso formular uma teoria que surja do estudo deste objeto e não aplicando impunemente teorias europeias da moda para entender um objeto literário, digamos, brasileiro.

Por conta disto, segundo o poeta Tufic, esquartejaram Macunaíma com o olhar importado do formalismo, do estruturalismo, do funcionalismo, do new criticism, da semiótica, da semiologia, da Escola de Frankfurt, da Teoria do Discurso e quejandos! Despedaçaram o coitado. Fatiaram-no por cada um destes “ângulos de análise”.

Assassinaram a Rapsódia. Ignoraram que para entender a literatura dos povos indígenas é preciso uma Poética que explique sua causalidade mágica e não lógica, suas metamorfoses, suas metáforas vegetais, sua narrativa não-linear, suas imagens surrealistas, sua doçura e sua função.

Cultura indígena Puri.
Cultura indígena Puri.

A Teoria da Literatura Amazônica explica tudo isto. Ela serve para polir a lente do olhar de quem pretende curtir o prazer de ler a literatura dos povos indígenas no Brasil. Não tem outro jeito. Não há outro modo de se aproximar das literaturas dos troncos linguísticos Tupi, Arawak, Pano, Karib e Macro – Jê, por exemplo.

Contudo, pior ainda que a aplicação mecânica de teorias literárias européias ao estudo da literatura popular brasileira, é tentar entender um povo indígena e sua literatura pelo ângulo da arqueologia, da linguística, da antropologia ou ainda da museologia. Uma pesquisa da Universidade de Ouro Preto, por exemplo, cuja autora omito, teve a pachorra de “A guisa de conclusão “, afirmar que “ouvimos falar em “Nação Puri”, “ Raça Puri”, “ “Língua Puri “, “Tribo Puri “, “Família Puri “ , “Horda Puri “ e, mais recentemente, até mesmo em “etnicidade Puri”, mas seremos realmente capazes algum dia de precisar quem seriam estes Puris?

O certo é que até o momento não dispomos de elementos suficientes que possam lançar luz sobre a questão. Uma sugestão a ser pensada seria a de tomarmos a verdadeira conotação do termo Puri – bravio, indomável e bárbaro, enquanto equivalente ao termo Tapuia na língua Tupi, que certamente vem perdendo seu status de categoria étnica, se é que um dia o teve.

De fato, se quisermos saber mais sobre estes grupos, temos que nos concentrar em estudos arqueológicos mais sistemáticos na região com vistas ã verificação das localidades indicadas nas fontes para os aldeamentos, enfatizando uma investigação da dinâmica social aí”. Ou seja , como ela não consegue entender o povo Puri, de Língua Macro- Jê, este povo da Serra da Mantiqueira e do Vale do Paraíba , no sudeste brasileiro, este povo não existe. E a pesquisadora chama isto de ciência. Eu chamo de comédia! E comédia pastelão… E ainda falseia a verdade da língua : Puri, para este próprio povo, quer dizer “manso, doce”e não “bravio e bárbaro”, como ela traduz do Macro-Jê.

O poeta Dauá Puri, que não deve saber qual a etnia desta pesquisadora, sabe muito bem a que povo pertence e sabe muito bem ainda como transformar a literatura tradicional de seu povo em narrativas curtas e poemas da melhor qualidade literária. Dauá Puri, na tradição literária de seu povo, de início, subverte logo a literatura autoral ocidental: ele atribui sua criação não a si , mas às energias naturais do lugar onde a escreveu. Não é ele quem escreve , mas as energias criativas da natureza em seu ser. Ele, como autor, apenas as transcreve ou traduz. ALKEH POTEH ( POEIRA DE LUZ ) Cambona schuteh Conversa boa boacé poteh palavra de luz koiah macapon falar de amor churi poteh iaman puri estrela luz alma puri tuschahih poteh sana vésper luz do caminho omi alkeh poteh chiman uma poeira de luz estrada haèraga ocòra nuvem no céu ignamá bote iò raio corta miricòdha alkeh poteh estrela pequena poeira de luz ( Pelas energias das montanhas de Miguel Pereira/2013 ) Traduzidas por Dauá Puri Causalidade mágica, metáforas naturais, sinergia cósmica, surrealismo e sonoridade da língua Macro-Jê , embora em tradução livre. Poesia Pau-Brasil.

A pesquisadora não sabe quem é o povo Puri, mas até os sapos e as gaivotas das matas de Xerém conhecem a história imemorial deste povo. Na fábula “Shaluh, o sapo, e Sambee, a criança” , são estes animais que contam a história desta cultura para as crianças Puri. A natureza e os animais são testemunhas milenares da existência desta nação Macro-Jê. Contudo, é compreensível que os ocidentais ainda não tenham aprendido a conversar com os bichos. É risível que insistam no racionalismo curto do “ainda não dispomos de indícios suficientes que possam lançar luz sobre a questão”.

A ciência social ocidental perdeu os sentidos. E não alcançou a luz do poema de Dauá ALKEH POTEH – POEIRA DE LUZ . Jombey – há muito tempo passado!

*José Ribamar Mitoso é Escritor, Dramaturgo, Professor da UFAM e Cronista Dominical do www.correiodaamazonia.com.br

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