Mais uma vez, as pérolas do ENEM – por Garcia Neto


Professor Garcia Neto
Professor Garcia Neto

As pérolas do Enem; mais uma vez tudo dentro do esperado: “Hormônios são células sexuais dos homens masculinos”, “Onde nasce o sol é o nacente, onde desce é o decente”, “O nervo ótico transmite idéias luminosas para o cérebro”. Os técnicos do MEC (Ministério da Educação) podem reconfirmar a importância de substituir a idéia de correto e incorreto no uso da língua portuguesa pelos estudantes nas provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) por “adequado e inadequado” a pérolas inconcebíveis, inaceitáveis, que o MEC as considera “desvios gramaticais leves”.

Considerar “desvios” a erros absurdos na língua portuguesa é querer nivelar por baixo a própria competência em dominar o que temos de mais sagrado: a nossa língua vernácula. Além de erros de grafia, mais uma vez foram encontrados “desvios” graves de concordância verbal, acentuação e pontuação. Para os técnicos do MEC, os ‘desvios leves’ desses alunos podem ser um indicativo de excelente domínio da norma padrão da língua escrita.

Dá para sorrir, para levar para o lado do humor, bem como para lamentar que a moçada do Enem é o futuro do país, logo perde a graça. É bom acautelar-se, porque o bom crítico corre o risco de responder por crime de “preconceito lingüístico”, mesmo justificando que o estudante egresso do ensino médio não está em processo de letramento na transição para o nível superior. Convenhamos, mas dá para se divertir numa boa, mesmo sabendo que a educação no Brasil precisa de investimentos pesados para reverter esse quadro ridículo.

É, no mínimo, divertido ler frases do tipo “O terremoto é um pequeno movimento de terras não cultivada”, “A insônia consiste em dormir ao contrário”, “As moléculas de água quando congela vira Duréculas e quando vaporiza vira vaporéculas…física é tão simples, ou melhor é simpéculas”, “Na cama dos deputados foi votada muitas lei” e “Animais fica sem comida e sem dormida por causa das queimada”.

Enquanto tudo ocorre dentro do esperado, os estudantes continuam a demonstrar pouco interesse pelos estudos; o governo insiste na manutenção da falência total do sistema educacional pela promoção continuada, pelos baixos salários dos professores, pela não repetência, pelo milagre dos professores em encarar uma sala de aula com 45, 50 ou mais alunos, o IDH (Relatório de Desenvolvimento Humano) do Brasil permanece abaixo da média da América Latina em educação e expectativa de vida. Enfim, não se pode admitir que a demagogia política ande de braço dado com a demagogia lingüística.
Não podemos permitir que o governo petista realize o desejo de modificar a grafia correta das nossas palavras por conta de interesses individuais ou de grupos políticos específicos. Quando Dilma Rousseff pediu para ser chamada de “presidenta” provocou sérias discussões e para a qual logo discordei, porque entendo que a grafia correta é “a presidente”. Do ponto de vista gramatical, substantivos e adjetivos terminados em “ente” não têm variação de gênero. Portanto, é errado dizer “clienta”, “gerenta” ou “pacienta”; usa-se o artigo para designar gênero: “o gerente” e “a gerente”, “o presidente” e “a presidente”.

Não devemos aceitar a popularização do uso ridículo e chula da nossa língua. Devemos, sim, estimular os estudantes a falar, ler e escrever corretamente, atento para o domínio das estruturas da língua portuguesa. Cabe ressaltar que o jovem estudante que escreve errado é eleitor.

*Garcia Neto é jornalista e professor universitário.

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