Natal é belo – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

No artigo anterior escrevi sobre a hipocrisia natalina, mas neste já que estamos no Natal vou ser menos azedo. O Natal, por si e por suas comemorações, geralmente emana um sentimento triste para o povo – digo povo no sentido geral de recolhimento familiar. É meio estranho, mas a verdade se apresenta em quase todos os lares. Alguém que partiu… Outros que morreram… Saudade daquele amor que passou… O sapato do filho ou do sobrinho órfão que não foi possível comprar… Vinho na mesa? – nem Capelinha sequer… O peru virou pinto anabolizante… A boneca da vitrine não sorri – nem com pilha… Papai Noel não sobe na favela… – de pobre, pois as dos traficantes do Rio parece dá algum dinheiro (pouco, mais dá) … O morro também tem garotada… Eu botei meu tamanco na janela… E de manhã não tinha nada… Patinete lá no morro… É um cabo de vassoura… Com lata de goiabada… (não me lembro de quem é esta letra de uma música que foi sucesso na voz de Helena de Lima que dava um show no Bar Cangaceiro – famoso nos anos 60, pelas beiradas de Ipanema ou de Copacabana da Cidade Maravilhosa).Natal é festejo, gente!…Quem acredita no nascimento de Jesus Cristo, deve fazer festa – familiar, é claro. Nada de choro nem lamentações. A vida multiplica-se em esperança. Quando nasce um herdeiro, os pais, avós e tios abrem whisky, cervejas, champanhe, pitus… Seja lá o que for. Quando se comemora aniversário de alguém, tem de tudo. Tem canapé, croquete, caviar, amendoim cozido – torrado, croissant, nozes, rabada e rabanete. Brinda-se com tudo – até com perfume (meu amigo Geraldo Catunda já fez isso nas paradas dos anos dourados). Festa é comemoração. Por que não exaltarmos o aniversário do nascimento de Jesus? Ele merece sempre, ou não?… Se for contestado por outras religiões, não me importo. O fato, é que todo ano o mundo se manifesta na vontade de todos os povos em dar vivas ao Natal. Reuniões nas casas enfeitadas de árvores luminosas… Pobres ou ricas. Favelados, hoje, somos todos nós, de qualquer maneira. Filhos ingratos. Irmãos distantes. Pais esquecidos. Companheiros apenas para beira de túmulos – choros hipócritas a ruminar velórios. Amizades já passam ao longe (quem tiver, mesmo que poucas, conservem-nas). Não se faz mais amizade de uma hora para outra – é engodo, falsidade. Forma mais fácil do interesse pessoal predominar nos bares, nas viagens, nos negócios, nas conquistas. É a globalização. É isso mesmo. Morreu, morreu – que se há de fazer? Acabou-se o sentimento? A melhor reflexão da conformação? Nada disso. A lembrança é a maior dádiva de reconhecimento aos queridos que já se foram. Mas não transformemos em tormentos as perdas familiares, justo durante o Natal – não é o melhor momento.

Poderia lembrar Valéry, João Cabral de Melo Neto, Drummond e até Joyce. Natal é resignação, é pensar, converter-se à instituição familiar. Soltar rojões de felicidade, transmitir paz aos filhos, netos – não com simples presentes e guloseimas – porém ensejando mensagens de continuidade da fé em Deus (seja lá qual Deus que se tem no coração, menos aquele que pregam na Igreja Universal, usando o santo nome Dele para clientelismo, tomando o dinheiro dos pobres e ignorantes).  Está bom de pararmos com tanto imobilismo quanto àqueles que usam o nome de Deus para enriquecer e desfilar de sedentos caras-lisas pelos milionários templos consumidores da boa-fé dos pobres coitados que nada sabem – mal suas origens. Sabem por que o Natal se torna tão triste? Porque a culpa se entranha na consciência da maioria daqueles que não têm coragem de agir. Sim. Agir de verdade. Concitar o vizinho à boa convivência – não, esquecê-lo (ou por ser de outro nível social e econômico – às vezes só um pouquinho abaixo de classe). Incentivá-lo a uma corrente combativa aos larápios que usam esta festa maior da cristandade para sofregar as bestas dos córregos e favelas circunvizinhas a vender tudo e entregar suas últimas economias para uma quadrilha de caras-lisas. Será possível que já não temos mais nessa nossa Manaus irredenta um pelotão de famílias corajosas que forcem as autoridades dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário a tomar posições de moralidade para com a nossa terra e a nossa insurreta posição secular?

Pensem. E pensem muito bem na noite de Natal!…
Em toda a periferia as crianças esperam um Papai Noel (até na sua casa, não esqueça). Esse velhinho é você – jovem pai, velho tio, conscientes e amadurecidos avós.

Joguem fora as encarquilhadas idéias do medo. Façam (ou não) como eu. Rezem (ou não) -, mas encantem o Natal!… Vibrem, congracem, beijem seus queridos próximos.

O mundo é perverso. O Natal é belo.

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