O Brasil de sempre – por Carlos Santiago

Carlos Santiagos é Sociólogo, Analista Político e Advogado.

Essa quarentena nos impõe também tarefas caseiras e alguns castigos toleráveis, além de uma revisão filosófica de nossas vidas e de releituras de livros importantes. Entre uma varrição de quintal e uma ordem da minha esposa para ir ao supermercado, devidamente aceita em silêncio, leio clássicos da Ciência Política. O mais recente, “O que é deputado” de Francisco Weffort, desnuda as raízes da qualidade da democracia institucional do Brasil e a desconfiança política do povo.


Weffort, depois de um passeio intelectual na história política do País, descreve que “a política da aristocracia do Império se fazia sem povo. A das oligarquias da Velha República se fazia por cima do povo. A política da democracia de 1946 se fazia – com as exceções honrosas de sempre – tomando o povo como massa de manobra. O Regime Militar pós-1964 se fazia contra o povo. Tudo isso significa que a desconfiança do povo em face da política e dos políticos tem raízes históricas profundas.”

A reflexão dele é da década de 80. Período de ebulição social e política no País. O Regime Militar tinha deixado o Brasil mais desigual, sem rumo e com hiperinflação. O povo, nas ruas, lutava por um Regime Democrático, pluralidade partidária, por direitos sociais, por direitos aos povos indígenas, aos negros e aos quilombolas, por ganhos trabalhistas, e pelo crescimento econômico e o fim da pobreza, dentre outras reivindicações, como o combate ao uso da máquina pública para beneficiar políticos e amigos. Isso levou a uma grande expectativa de mudança institucional. Uma Assembleia Nacional Constituinte foi eleita e uma Lei Suprema foi aprovada e denominada de Constituição Cidadã.

Carlos Santiagos é Sociólogo, Analista Político e Advogado.

Agora, depois de 34 anos da obra de Francisco Weffort, e após as experiências dos governos do MDB, do PRN, do PSDB, do PT e do PSL/Bolsonaro, continuamos com os mesmos problemas: a conquista de um regime democrático perene; a inclusão social de milhões de miseráveis; os direitos trabalhistas diminutos; a economia decadente; o povo fora das decisões dos gestores públicos; políticos e administradores com crescentes descréditos; a velha política do toma lá dá cá. Resumindo: o Brasil continua sem rumo e com incertezas do futuro.

Nos últimos anos, acabaram até com a esperança do povo. Conseguiram “roubar” até os sonhos de homens e mulheres que há séculos lutavam e lutam por um Brasil justo. Assistimos ao surgimento de uma geração de lideranças políticas sem ética, independentemente de posição ideológica. Algumas até acusadas e encarceradas por crimes de corrupção; outras, “administrando” governos com ineficiência, objetivando tão somente os interesses da família ou de pequenos grupos de amigos e de malfeitores.

É triste e desalentadora a conjuntura brasileira. Há séculos roubam as riquezas materiais e culturais do povo, mas agora é deprimente saber que estão levando até os sonhos alimentados por gerações de homens e mulheres que lutavam e lutam por um Brasil próspero, justo e sem “entulho” autoritário.

Os ensinamentos de Francisco Weffort, e de outros brasileiros valorosos, precisam ser levados em consideração pelos políticos, pela elite econômica e pelos chefes dos poderes da nossa República. O País não irá avançar sem uma democracia perene, sem a inclusão do povo nas decisões das administrações públicas e com dirigentes eficientes e confiáveis.

Apesar de ocorrerem mudanças, elas não conseguiram abalar as bases de um subdesenvolvimento persistente.

Carlos Santiago é Sociólogo, Analista Político e Advogado.

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