O Brasil sem mentira – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Lembro que o inexcedível Ruy Barbosa continua sendo, no curso de todas as épocas, a fonte exuberante e inesgotável de expressivas inspirações. Não há fatos e acontecimentos de todos os matizes, comentados por ele ontem, que não repercutem ainda hoje, e, certamente, com reproduções no amanhã. Seus pensamentos, que se formaram na sociedade de seu tempo, mantêm-se vivos na sociedade atual, e, por isso mesmo, essa ininterrupta riqueza do culto histórico que lhe é sempre rendido. Tudo isso vem a propósito com o que está acontecendo no Brasil. O Brasil não é isso. Não é o da mentira. Mentira é enunciação contrária à verdade. É proferir como verdadeiro o que é falso. Dir-se-á que é engano da alma e dos sentidos.

A psicologia experimental e pedagógica reconhece que as crianças mentem naturalmente porque possuem intensa atividade criadora. Difícil distinguir o real do irreal, a verdade da mentira. A mentira do adulto, no entanto, é perniciosa, quando não maléfica, e de consequências imprevisíveis. Danosa porque é subjetivamente desejada. Brigou Ruy, naquela oportunidade, contra os políticos obstinados pela ambição do poder que, para nele manter-se, fazem da mentira instrumentos dessas endemias morais. Inadmissível conviver com esses condutores do povo que falam todos idiomas da mentira. Indignado, continuou Ruy, vociferando “que o povo sempre foi enganado pela mentira. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita.

No terreno da coisa pública, a mentira constitui o instrumento da usurpação da soberania. É o monopólio da mentira. Há uma impregnação tal das consciências pela mentira, que se acaba por não discernir a mentira da verdade, que os contaminados acabam por mentir a si mesmos, e os indenes, ao cabo, muitas vezes não sabem se estão ou não mentindo”. Impossível, portanto, viver nesse reino da mentira. É a mentira sonegando ao público as dissipações, as malversações, as corrupções, à custa das quais se mantém. Necessário estancar esse furor dilapidatório em que se esteriliza a administração, em que na política se mercadeja e em que o desamor da pátria conduz a opinião pública ao ludíbrio. Notável libelo histórico contra a mentira gravado com tintas incandescentes. Desgraçadamente a mentira política sobrevive nos dias atuais, matando esperanças, perseguindo virtudes, divinizando crimes, inquietando pessoas e destruindo nomes.

Tudo isso perturba a serenidade da consciência moral e perverte o sentimento da dignidade humana. Na explicação das mutações sociais, não há que se culpar a política, mas os que a exercitam dolosamente. Política não é essa sofreguidão em defender interesses individuais.

É ter o uso legítimo do poder para alcançar o bem comum da sociedade. Não esquecer Sócrates que advertiu aos homens de bem e justos que entrassem na política. O maior castigo do homem de bem que recusa governar os outros é o de ser governado pelos piores. Difícil chegar ao idealismo de Platão, que coloca a vida pública à altura de um sacerdócio. Difícil também o conceito aristotélico sobre política por considerá-la a mais alta das ciências. Foi essa repulsa política que ensejou a subida do maquiavelismo. Aí está a herança desse maquiavelismo sequioso. A indignação do povo, como outrora fizera Ruy, tem justificativa, porque o Brasil, que não é o da mentira, deveria ter um povo de alma livre, ter imprensa sem censura e regras democráticas sem coação. O Brasil não é isso, que se assoalha de crise aguda invencível, mas o Brasil é o real, confiante no seu destino e na força de sua potencialidade.

Chega de colocar parentes do judiciário na Administração Pública em troca de fechar os olhos para a corrupção, chega também do próprio Judiciário se locupletar com cargos na Administração Pública e de verbas indenizatórias que parecem legais, porém imorais e absurdas.

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