Os jornais e seu futuro – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

Caros leitores, após dezessete anos escrevendo semanalmente nas paginas do Em Tempo, achei que deveria parar, e dois anos após essa parada eis que Glaucia Chair, agora Diretora de Redação me faz o convite para escrever aos domingos neste matutino. Aceitei, por acreditar na credibilidade de Glaucia e tendo a certeza que os jornais não acabarão.

Os jornais perdem leitores em todo o mundo. Multiplicam-se as tentativas de interpretação do fenômeno. Seminários, encontros e relatórios, no exterior e aqui, procuram, incessantemente, bodes expiatórios. Televisão e internet são, de longe, os principais vilões. Será? É evidente que a juventude de hoje lê muito menos. Mas não é só a juventude que foge dos jornais. A chamada elite, classe A e B, também tem aumentado a fileira dos desencantados. Será inviável conquistar toda essa gente para o fascinante mundo da cultura impressa? Creio que não. O que falta, estou certo, é realismo e qualidade.

Os jornais, equivocadamente, pensam que são meio de comunicação de massa. E não são. Daí derivam erros fatais: a inútil imitação da televisão, a incapacidade para dialogar com a geração dos blogs e dos videogames e o alinhamento acrítico com os modismos politicamente corretos. Esqueceram que os diários de sucesso são aqueles que sabem que o seu público, independentemente da faixa etária, é constituído por uma elite numerosa, mas cada vez mais órfã de produtos de qualidade.

Num momento de ênfase no didatismo e na prestação de serviços – estratégias úteis e necessárias –, defendo a urgente necessidade de complicar as pautas. O leitor que precisamos conquistar não quer o que pode conseguir na TV ou na internet. Ele quer qualidade informativa: o texto elegante, a matéria aprofundada, a análise que o ajude, efetivamente, a tomar decisões.

Autor do mais famoso livro sobre a história do The New York Times, Gay Talese vê importantes problemas que castigam a imprensa de qualidade. “Não fazemos matéria direito, porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones e gravações. Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas.” (…) “Não se anda na rua, não se pega o metrô ou um ônibus, um avião, não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se está conversando”, conclui Talese.

E o leitor, não duvidemos, capta tudo isso. Um amigo gozador costuma dizer-me que a expressão “jornalismo de qualidade” é, hoje em dia, contraditória em si mesma. Outro dia, quis exemplificar-me essa sua opinião. Veja, dizia, “boa parte do noticiário de política não tem informação. Está dominado pela fofoca e pelo espetáculo. Não tem o menor interesse para os leitores”. O uso de grampos como material jornalístico, por exemplo, virou ferramenta de trabalho. A velha e boa reportagem foi sendo substituída por dossiê. De uns tempos para cá, o leitor passou a receber dossiês que, muitas vezes, não se sustentam em pé. Curiosamente, quem os publica não se sente obrigado a dar nenhuma satisfação ao leitor.

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

Entramos na era do jornalismo sem jornalistas, nos tempos da reportagem sem repórteres. O público, informado e exigente, resiste à mesmice de pautas politicamente corretas. Recentemente, num seminário de imprensa, fui questionado a respeito da qualidade da cobertura da eleição do novo Papa. Ela foi, quantitativamente, magnífica. Do ponto de vista da qualidade, no entanto, ficou bastante aquém do que poderíamos ter feito. Ficaram alguns jornais, infelizmente, reféns de raivosas declarações de reduzidos e conhecidos desafetos do então cardeal Ratzinger. Criou-se, assim, contra toda a evidência e verdade, uma falsa imagem do novo Papa. Bento XVI seria um eclesiástico duro, quase intratável.

Quem o conhece, e a mídia italiana foi correta e profissional na informação que deu aos seus leitores, sabe que se trata de um homem cordial, aberto e de grande capacidade de diálogo. Não obstante, como prefeito da Congregação da Defesa da Fé, cumpriu o seu dever: defender o núcleo fundamental da doutrina católica. Sem essa defesa, por óbvio, a Igreja perderia sua identidade.

Aqui, no entanto, sucumbimos ao politicamente correto, prisioneiros de clichês que, há muito, deveriam ter sido banidos das redações: “conservador”, “progressista” etc. Daí o descompasso entre essas interpretações e a força eloquente dos números e dos fatos. O papado deu um banho de vigor e vitalidade. É necessário cobrir os fatos com uma perspectiva mais profunda. Convém fugir das armadilhas do politicamente correto e do contrabando opinativo semeado pelos arautos de ideologias anacrônicas. É preciso, sobretudo, enfrentar a batalha da isenção. Caso contrário, perderemos o apoio dos leitores mais qualificados. Só uma séria retomada na qualidade informativa garantirá a fidelidade dos antigos leitores e a conquista de novos. Precisamos mostrar, com fatos e com obras, que os jornais continuam sendo úteis, importantes, um guia insubstituível para a navegação na vida real.

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