Picles de vitória-régia podem virar opção de fonte de renda para ribeirinhos

Amostras de conservas de pecíolo de vitória-régia em salmoura — Foto: Carolina Diniz/G1AM

Conhecida como uma planta alimentícia não convencional (PANC), a vitória-régia, nativa da região amazônica, vem ganhando espaço no cardápio de restaurantes que investem em pratos exóticos. Suas flores incrementam saladas, o rizoma lembra um tipo de batata e as sementes viram pipoca. Mas o pecíolo (ou caule), que já é servido como uma espécie de ‘macarrão’, virou alvo de pesquisa e acabou ganhando o formato similar ao picles.

Para a pós-graduanda em tecnologia de alimentos do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Midori Nakamura Marques, de 40 anos, responsável pelo projeto, a intenção era desenvolver um produto sustentável que pudesse ajudar as comunidades ribeirinhas a aproveitarem a natureza como fonte de renda e proporcionar melhor qualidade de vida aos moradores.

Pecíolos de vitória-régia naturais — Foto: Carolina Diniz/G1AM

Foi por meio da vitória-régia que a pesquisadora descobriu que, com o mínimo de processamento, é possível transformar os pecíolos da planta em conservas com durabilidade de até 6 meses.

“Embora a flor e as sementes também sejam comestíveis, a parte mais comercial da planta é o pecíolo. Quando a gente tira o caule para comercializar, a gente não mata a planta, como acontece quando tiramos o rizoma. Ele nasce novamente”, explicou.

Mestranda de tecnologia de alimentos Midori Nakamura — Foto: Carolina Diniz/G1AM

Midori acredita que a ideia de utilizar somente o caule é a mais pura forma de sustentabilidade. “Se eu corto o cabo da folha para fazer um produto, eu não estou agredindo o meio ambiente. Mas se eu tiro o rizoma para comercializar, eu posso até ser presa porque é crime ambiental. Também não é boa ideia retirar as sementes da flor para fazer pipoca, porque dessa forma ela não vai ter como se propagar”, acrescentou.

Apesar de já ser utilizada na culinária do Amazonas e também de São Paulo, a pesquisadora afirma que antes do estudo, “ninguém sabia exatamente o valor nutricional da planta, então as análises eram necessárias”.

Composta praticamente de água, uma análise dos minerais revelou que 100g de pecíolo tem a mesma quantidade de cálcio de um copo de leite integral, além de ser um produto de baixo teor calórico e saboroso. “O sabor é mais suave que pepino e a textura in natura é similar ao alho poró, crocante e delicado ao mesmo tempo”.

Durante a pesquisa, 30 pessoas – não treinadas ou especialistas – foram submetidas a uma análise sensorial e, como parâmetro, foi distribuída também amostras de picles de pepino. “Avaliamos textura, cor e sabor. Todas as conservas de vitória-régia ganharam, em comparação com o pepino.

No laboratório, a conserva foi desenvolvida também para testar sua durabilidade na prateleira para comercialização.

Conservas de pecíolo de vitória-régia duram até seis meses sob refrigeração — Foto: Arquivo pessoal

Foram produzidas três tipos de amostras, que foram testadas periodicamente ao longo de seis meses. As conservas acidificadas seguiram padrões estabelecidos pela Embrapa, com uma receita de salmoura, vinagre comum, sal e açúcar, nas proporções preestabelecidas. Além dos ingredientes básicos, Midori acrescentou também um item diferente em duas delas: grãos de mostarda e orégano.

Nos resultados, a única amostra que apresentou diferença foi a que levou orégano, que conservou as propriedades pelo mesmo período, de seis meses, mesmo sem refrigeração. As demais opções mostraram necessidade de armazenamento refrigerado.

O próximo passo de Midori é encontrar meios de levar a conclusão da pesquisa ao público-alvo. “O trabalho do pesquisador muitas vezes morre no laboratório por não ter como levar para a população”, lamenta a pesquisadora.

A ideia é que parceiros interessados em compartilhar o material com os povos de baixa renda possam auxiliar na conscientização e treinamento das comunidades.

“Se os ribeirinhos descobrirem o potencial que isso tem, e que tem público interessado, eles podem melhorar a qualidade de vida deles. O cuidado que devemos ter é orientar a população de que não podem retirar o rizoma da planta”, alertou.

Fonte: G1/Amazonas

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