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Quando a “máquina” não vira voto: eleição no Amazonas desafia estruturas de poder – por Altemir Viana

Altemir Viana é Sociólogo e Consultor Político - Foto: Divulgação

Wilson Lima, David Almeida, Roberto Cidade e Tadeu de Souza chegaram à eleição carregando estruturas políticas construídas no poder executivo. Agora, as urnas colocam em xeque até onde essa força administrativa consegue virar voto.

O presente artigo busca analisar o processo eleitoral no Amazonas a partir dos candidatos que mantêm maior proximidade política com administrações públicas estaduais e municipais.


Esta análise é uma projeção baseada nas pesquisas disponíveis, no histórico das últimas eleições e na observação do cenário político. Não pretende antecipar ou adivinhar o resultado eleitoral.

O objetivo é observar até que ponto a chamada “máquina pública”, entendida aqui como a influência política e administrativa de governos e estruturas públicas, foi capaz de produzir efeitos eleitorais nas disputas deste ano.

No contexto eleitoral brasileiro, a expressão “máquina pública” costuma ser associada ao uso da estrutura administrativa — recursos públicos, servidores, bens ou serviços governamentais — para favorecer candidaturas. Esse tipo de utilização é vedado pela legislação eleitoral.

O entendimento da Justiça Eleitoral é de que pode haver abuso do poder político quando a estrutura da administração pública é utilizada para beneficiar uma candidatura ou prejudicar adversários.

Para garantir condições de igualdade entre os concorrentes, a legislação eleitoral estabelece uma série de restrições, especialmente para impedir que a estrutura do poder público seja utilizada de forma indevida durante o processo eleitoral.

Candidatos com a “máquina”

No jargão político, a expressão “estar com a máquina” é utilizada para se referir a candidatos que possuem relação política ou apoio de estruturas administrativas dos governos federal, estadual ou municipal.

No Amazonas, algumas candidaturas desta eleição permitem observar esse fenômeno de maneira mais evidente.

Wilson Lima: a força da relação com os prefeitos e aliados

O ex-governador Wilson Lima (União) deixou o cargo para disputar uma vaga ao Senado pelo Amazonas, apostando na relação política construída ao longo de seu governo com prefeitos do interior e com grupos políticos e econômicos que mantiveram interlocução com sua administração.

Entretanto, considerando as pesquisas eleitorais divulgadas durante a campanha e a observação do cenário político, sua candidatura enfrentou dificuldades para transformar essa estrutura de apoio em desempenho eleitoral suficiente para alcançar uma das vagas em disputa.

A questão central, nesse caso, é justamente medir até que ponto a influência política construída durante o governo estadual se converteu efetivamente em votos.

Tadeu de Souza: da vice-governador à Câmara

Outro caso é o do ex-vice-governador Tadeu de Souza (PP).

Com a saída de Wilson Lima do governo, Tadeu tinha a possibilidade de assumir o comando do Estado, mas decidiu não permanecer na linha sucessória e optou por disputar uma vaga de deputado federal.

Na disputa pela Câmara, enfrenta uma chapa com outros candidatos que, dentro das premissas desta análise, apresentam condições eleitorais para obter votação superior à sua.

O cenário coloca Tadeu diante de um desafio: transformar a experiência acumulada no Executivo estadual e a rede política construída durante o período em que ocupou a vice-governadoria em votos suficientes para conquistar uma das cadeiras em disputa.

David Almeida: o risco da saída da Prefeitura

O ex-prefeito de Manaus David Almeida (Avante) deixou a Prefeitura para disputar o Governo do Amazonas.

A decisão representou uma aposta política relevante, já que Almeida ainda tinha aproximadamente dois anos e nove meses de mandato à frente da maior cidade do Estado e de uma administração com orçamento bilionário, em média de 12 bi por ano.

Ao deixar o cargo, abriu mão diretamente da estrutura política da Prefeitura para enfrentar uma disputa majoritária estadual.

As pesquisas divulgadas durante a campanha e a análise do cenário eleitoral indicavam dificuldades para sua candidatura, inclusive com a possibilidade de terminar fora das primeiras posições. Portanto, o candidato teve um erro de cálculo politico e assumiu um risco que poderá acarretar no seu declínio politico.

Aryel Almeida: a influência política da Prefeitura

A situação de Aryel Almeida, filha do ex-prefeito David Almeida, também merece atenção.

Candidata a uma vaga na Câmara dos Deputados, Aryel chegou à campanha sendo considerada, dentro de determinados setores políticos, uma candidatura competitiva para conquistar uma das cadeiras.

Parte dessa expectativa estava relacionada à estrutura política construída pelo grupo de David Almeida durante seus dois mandatos à frente da Prefeitura de Manaus.

A questão, portanto, era saber se essa estrutura política seria suficiente para transformar influência administrativa e capital político em votos para uma candidatura ao Legislativo federal. Tudo indica que essa influência não acontecerá para garantir a chegada na câmara federal. Mais, uma prova que a “máquina” por si só, não garante votos.

Governador pode ficar fora do segundo turno

Outro caso central é o do atual governador Roberto Cidade (União), que assumiu o comando do Estado após a vacância deixada pelo ex-governador e pelo ex-vice governador.

Candidato à reeleição, Roberto Cidade também esteve no centro de denúncias e questionamentos relacionados ao suposto uso da estrutura pública em benefício de sua candidatura.

Um dos episódios envolve a Agência Amazonense de Desenvolvimento Cultural, Social e Ambiental (Aadesam) e o processo de desligamento de trabalhadores contratados pela instituição. O caso gerou acusações de perseguição política e retaliação eleitoral durante o período vedado pela legislação.

Outro episódio envolve uma operação da Polícia Federal na área da Segurança Pública, com suspeitas relacionadas ao uso da estrutura do órgão em benefício de interesses eleitorais. O caso também envolveu investigações sobre suposta espionagem de estratégias eleitorais de adversários.

Esses episódios passaram a fazer parte do ambiente político da campanha e podem ser considerados, nesta análise, como fatores capazes de afetar a percepção do eleitorado sobre a administração estadual.

Roberto Cidade iniciou a campanha aparecendo em posições mais distantes dos primeiros colocados nas pesquisas e, na reta final passou a aparecer em segundo lugar em alguns levantamentos.

O ponto central, portanto, é saber se a evolução nas pesquisas será suficiente para levá-lo ao segundo turno ou se os desgastes políticos acumulados durante a campanha poderão limitar seu desempenho eleitoral.

Além das denúncias e questionamentos relacionados à chamada “máquina pública”, pesa também sobre sua candidatura a associação política com o ex-governador Wilson Lima, fator que poderá ser considerado pelos eleitores na decisão final.

A decisão dos eleitores nos dois últimos dias

Com apenas dois dias para a eleição, a disputa entra em uma fase em que eleitores indecisos e movimentos de voto útil podem alterar significativamente o cenário apresentado pelas pesquisas.

Nesse contexto, a candidatura de Maria do Carmo (PL) pode ganhar espaço na disputa pelo segundo turno, enquanto David Almeida e Roberto Cidade, associados nesta análise aos grupos políticos que controlaram as principais estruturas administrativas do Estado e da capital, enfrentam o desafio de transformar suas estruturas políticas em votos efetivos.

A hipótese levantada por esta análise é justamente essa: a força das chamadas “máquinas públicas” não necessariamente se converteu, até aqui, em vantagem eleitoral proporcional à estrutura política disponível.

David Almeida deixou a Prefeitura para disputar o Governo do Estado. Wilson Lima deixou o Governo para disputar o Senado. Tadeu de Souza deixou a possibilidade de assumir o Executivo estadual para disputar a Câmara. Roberto Cidade, por sua vez, disputa a permanência no comando do Estado.

Em todos esses casos, existe uma questão comum: até que ponto a estrutura política construída no exercício do poder executivo é capaz de sobreviver ao momento em que o eleitor precisa transformar apoio político em voto?

A resposta definitiva estará nas urnas e, posteriormente, na apuração oficial da Justiça Eleitoral.

Altemir Viana é sociólogo e consultor político.

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