
Mais do que conhecer paisagens naturais, visitar a Amazônia pode significar uma experiência de contato direto com comunidades que vivem e preservam a floresta. É nesse contexto que o turismo de base comunitária (TBC) vem ganhando espaço na região, aproximando visitantes dos modos de vida, da cultura e dos conhecimentos tradicionais dos povos amazônicos.
Presente nos nove estados da Amazônia Legal — Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins —, o turismo comunitário busca distribuir os benefícios da atividade turística para além dos grandes centros. Nesse modelo, moradores assumem o protagonismo como guias, produtores, artesãos, barqueiros e anfitriões, enquanto alimentos, tradições e conhecimentos locais passam a integrar a experiência oferecida aos visitantes.
Para o diretor executivo da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta), Luiz Del Vigna, ampliar o turismo para comunidades do interior é uma forma de fortalecer a economia local e valorizar a diversidade da região.

“A grande força da Amazônia está na sua imensidão e diversidade. Quando apostamos na descentralização e levamos o fluxo turístico para todos os estados e comunidades do interior, ampliamos as oportunidades de renda e permitimos que o visitante vivencie a verdadeira diversidade socioambiental da floresta”, destaca.
Turismo que preserva e gera renda
O turismo comunitário também está relacionado à bioeconomia e à conservação ambiental. A proposta é gerar renda a partir da valorização da floresta em pé, sem depender da derrubada da vegetação, do esgotamento dos recursos pesqueiros ou da degradação do solo.
Um exemplo está na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, no Amazonas. Um estudo publicado em 2025 na revista científica Delos sobre a comunidade de Tumbira, acessível somente por embarcações, apontou que o turismo envolve diretamente 55% dos moradores. Quando são consideradas atividades relacionadas, como agricultura, navegação e artesanato, o alcance chega a 75% da população.

Além de movimentar a economia, a atividade permite transformar saberes tradicionais, trajetos, culinária e formas de viver na floresta em experiências turísticas conduzidas pelos próprios moradores. Dessa forma, o visitante deixa de apenas observar a paisagem e passa a contribuir diretamente para a geração de renda das comunidades responsáveis pela conservação daquele território.
Experiências se espalham pela Amazônia
Iniciativas de turismo de base comunitária vêm sendo desenvolvidas em diferentes estados da região.
No norte de Mato Grosso, a Rota Agroecológica Guadalupe, organizada pela Raizeira Ecoturismo, reúne cinco iniciativas de turismo comunitário em Alta Floresta. O roteiro combina agricultura familiar, produção orgânica e conhecimentos tradicionais.
Em Roraima, experiências na Terra Indígena Raposa Serra do Sol proporcionam aos visitantes contato com comunidades indígenas e seus modos de vida, com o manejo territorial como parte da experiência. No Pará, a Amazônia Aventura desenvolve atividades de ecoturismo que passam pelo Parque Estadual do Utinga e pelas ilhas de Belém, aproximando turistas do cotidiano de comunidades ribeirinhas.
Regulamentação e desafios
O crescimento do setor também vem acompanhado de avanços institucionais. Em 2025, Funai e ICMBio estabeleceram diretrizes para a visitação em áreas onde Terras Indígenas e Unidades de Conservação se sobrepõem. As regras buscam garantir o protagonismo dos povos originários, em consonância com os selos oficiais de Etnoturismo da Funai.
No âmbito federal, o Plano Nacional de Turismo 2024–2027 e o Programa de Apoio ao Desenvolvimento de Produtos, previsto para 2026, incluem ações voltadas à estruturação do turismo de base comunitária, além de investimentos em infraestrutura e resiliência diante das mudanças climáticas.
Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta obstáculos como dificuldade de acesso ao crédito, necessidade de capacitação profissional, falta de conectividade em algumas comunidades e desafios logísticos para garantir um turismo sustentável em áreas remotas.

Para Del Vigna, o desenvolvimento da atividade precisa garantir que a população local esteja no centro da cadeia econômica.
“Não basta colocar a Amazônia no mapa das agências de viagens; é preciso garantir que o morador local seja o principal beneficiado”, afirma.
Segundo ele, transformar o potencial turístico da região em desenvolvimento sustentável exige investimentos em infraestrutura, capacitação e relações comerciais de longo prazo.
“Preservar a Amazônia precisa ser economicamente viável e próspero para quem vive e protege o território”, conclui.
5 Experiências para Conhecer a Amazônia Socioambiental
1. Raizeira Ecoturismo (Mato Grosso): Rota Agroecológica Guadalupe e turismo de conservação com observação de aves em RPPN no norte mato-grossense.
2. Juju Tour (Amazonas): Turismo de base comunitária em Novo Airão, com imersão na cultura e na natureza amazônica que conecta viajantes à cultura e aos saberes da região.
3. Roraima Adventures (Roraima): Expedições de aventura integradas com circuitos de vivência comunitária e valorização da cultura indígena na Raposa Serra do Sol.
4. Amazônia Aventura (Pará): Roteiros de ecoturismo e vivências com comunidades ribeirinhas no entorno de Belém.
5. Vivalá (Acre): Imersões comunitárias e vivência cultural de base comunitária junto ao povo indígena Shanenawa.




