
O combate ao crime organizado é uma das maiores preocupações dos brasileiros. Facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) desafiam o Estado, espalham violência e alimentam redes milionárias de tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro. Mas uma coisa é combater o crime com firmeza.
Outra, completamente diferente, é transmitir ao mundo a imagem de que o Brasil não tem condições de enfrentar seus próprios problemas.
Foi exatamente essa sensação que o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), provocou ao solicitar ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que classifique as facções brasileiras como organizações terroristas.
A iniciativa pode agradar parte do eleitorado mais radical, mas produz um efeito colateral grave: lança dúvidas sobre a capacidade das instituições brasileiras e desmoraliza milhares de profissionais que enfrentam diariamente o crime organizado dentro do território nacional.
Policiais militares, policiais civis, policiais federais, agentes penitenciários e integrantes das Forças Armadas colocam suas vidas em risco todos os dias para proteger a população. São homens e mulheres que atuam em operações complexas, enfrentam quadrilhas armadas, realizam apreensões históricas e desarticulam esquemas criminosos em todas as regiões do país.
Na Amazônia, por exemplo, o trabalho das forças de segurança e das Forças Armadas tem imposto prejuízos bilionários às organizações criminosas. Operações conjuntas têm fechado rotas do narcotráfico, destruído estruturas ilegais e retomado áreas estratégicas utilizadas por facções.
A recente atuação do Comando Conjunto Harpia e da Operação Ágata Amazônia demonstrou que o Estado brasileiro possui capacidade operacional para agir de forma coordenada e eficiente na defesa de suas fronteiras e da soberania nacional.
Diante desse cenário, a pergunta que muitos profissionais da segurança fazem é simples: se o Brasil está combatendo, prendendo, apreendendo e enfraquecendo essas organizações, por que um pré-candidato à Presidência precisa recorrer a um governo estrangeiro para tratar de um problema interno?
O ponto central da discussão não é o combate às facções. Sobre isso existe consenso. O problema está na mensagem política transmitida ao mundo.
Ao buscar a intervenção de uma potência estrangeira em um tema que envolve diretamente a segurança nacional, Flávio Bolsonaro passa a impressão de que as instituições brasileiras são incapazes de cumprir sua missão constitucional. É uma narrativa perigosa para um país que sempre defendeu a autodeterminação dos povos e a inviolabilidade de seu território.
Nenhum militar formado sob os princípios da defesa nacional vê com naturalidade qualquer possibilidade de interferência externa em assuntos internos do Brasil. A soberania não é um detalhe burocrático. É um dos pilares da República.
Cooperação internacional é necessária e desejável. Troca de inteligência, acordos de combate ao tráfico internacional e operações conjuntas entre países fazem parte da realidade do enfrentamento ao crime organizado moderno. Mas cooperação é uma coisa. Subordinação ou dependência são outra completamente diferente.
O Brasil precisa de mais investimentos em inteligência, tecnologia, equipamentos e valorização dos profissionais de segurança. Precisa fortalecer suas instituições, e não enfraquecê-las perante a comunidade internacional.
Ao transformar uma questão interna em pauta para um governo estrangeiro, Flávio Bolsonaro acabou atingindo justamente aqueles que mais se sacrificam para combater o crime: os agentes públicos que enfrentam as facções nas ruas, nas fronteiras, nos rios da Amazônia e nos centros urbanos.
Afinal, se existe algo que incomoda os brasileiros honestos, não é apenas a existência das facções criminosas. É a ideia de que alguém possa acreditar que o país precisa de tutela estrangeira para derrotá-las.
O Brasil tem problemas graves. Mas também tem instituições, forças de segurança e profissionais que dedicam suas vidas à defesa da nação. Ignorar esse esforço é cometer uma injustiça com quem está na linha de frente da luta contra o crime organizado.
E, para muitos brasileiros, foi exatamente essa a impressão deixada pelo gesto de Flávio Bolsonaro.
Por Augusto Mateus





