Carnaval – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

Eis que chega o Carnaval (em boa hora), ocasião em que o “povão”, com muita fantasia, sensualidade e androginia, cria um clima de alegria contagiante, com o fascínio dos sons e das cores, esquecendo as mazelas da vida. O Carnaval é, em síntese, o culto ao belo. E, como disse o sociólogo italiano Domenico de Masi, referindo-se à festa brasileira: “Durante o carnaval, os pobres oferecem aos privilegiados a sua música, as suas cores e a sua alegria, contagiando-os com a explosão de beleza e de prazer. Um povo pobre de recursos materiais, mas riquíssimo de cultura, disposto a acolher toda a diversidade, a fazer conviverem pacificamente todas as raças da terra e todos os deuses do céu”. Penso como os estrangeiros que visitam nosso país neste mes de fevereiro devem estar se perguntando como é possível que um povo com tantas dificuldades econômicas e sociais – que enfrenta cotidianamente a miséria, o aumento de tarifas públicas, o desemprego, a dengue, o apagão, a violência e a corrupção – seja capaz de produzir e promover de forma tão competente o maior espetáculo da Terra.

Goste-se ou não do Carnaval, é impositivo reconhecer que nada se compara à festa que paralisa o país durante quatro dias e leva para as ruas das grandes cidades não apenas a espontaneidade dos foliões, mas também o profissionalismo, a criar sonhos tão belos, por que não seremos capazes de construir uma realidade melhor? Os artesãos de Parintins mostram na Sapucaí, sua arte mesmo sabendo que as grandes escolas do Rio de Janeiro sempre causam impacto pelo gigantismo e pela inventividade. Arregimentados em todas as camadas da população, os sambistas desfilam solidários e integrados, numa organização de dar inveja até mesmo aos mais disciplinados exércitos. O Sambódromo se transforma num imenso palco, no qual são encenadas verdadeiras obras-primas da cultura nacional, inspiradas nas lendas, nos personagens e nos fatos pitorescos de nossa história. O Carnaval é uma festa, mas é também uma competição que exige muito trabalho e muito planejamento.

A imaginação voa. E os carnavalescos também. Já vimos uma escola carioca fazer um astronauta equipado pela NASA pairar sobre a avenida, agora com uma simbólica fantasia de papagaio. Mais do que isso, duas outras competidoras elegeram “o sonho de voar” como enredo e uma delas apresentou um carro alegórico exemplar para estes tempos de guerras e atentados: o Avião da Paz, tripulado por crianças de várias nacionalidades. Poderia haver mensagem mais adequada? Há, portanto, sob as fantasias luxuosas, um Brasil capaz e consciente, que sabe transmitir o seu recado.

Não se pode ter a pretensão de achar que o Carnaval é um modelo infalível de eficiência: alguns carros alegóricos quebram, adereços se desmancham no meio do desfile, às vezes a bateria desafina e os sambistas erram o passo. Também há deformações lamentáveis em torno da grande festa, crimes, acidentes de trânsito e outros excessos. Porém estas falhas e mazelas indicam apenas que o grande espetáculo é feito por seres humanos – representativos, nos seus defeitos e nas suas virtudes, da sociedade brasileira. O essencial é que estes brasileiros, os que fazem o Carnaval e também os que não ligam para o samba, têm potencial inquestionável para construir um país digno, justo e feliz. Bom carnaval a todos.

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

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