[Crônica] Blecaute – por Isabela Abes Casaca


escuridao_vela_energia_eletrica_blecaute

…ON... !!! B-L-E-C-A-U-T-E !!! …OFF

Toda iluminação elétrica esvaeceu-se, apagou-se. Caio estava sentado no sofá de sua sala, frente a TV LED 3D, a tela estava escura, a programação interrompida – Droga… Justo agora que o programa sobre a conquista espacial estava chegando a melhor parte, a missão Apollo 12… – pensou.

Dirigiu-se para a cozinha e abriu a geladeira – Esqueci de comprar comida… – Nada pra beber, nada pra comer, fechou a porta. E agora como ele irá se entreter? Retornou a sala, pegou o controle e apertou em vão o botão de ligar a tv, não há como arrumar o que ver. E agora como ele irá se entreter?

The lunatic is on the grass… The lunatic is on the grass…

Então percebe que em sua mão, na utilidade lanterna, está seu smartphone, eis ai a distração. – Ainda bem que o 3G ainda funciona… – Hora de ficar conectado nas indispensáveis e essenciais redes sociais. Curte, compartilha, twitta, publica hastag #blecaute, comunica, reclama, conversa, publica hastag #tedio, posta foto, faz check-in, ouve música, assiste a um vídeo, busca novidades a todo tempo, novas informações inúteis em milésimos de segundo.

Mas essas coisas tem fim, a bateria míngua, finda sem deixa escapatória, na escuridão do blecaute Caio procura uma vela, a duras penas encontra uma, de um pacote comprado há anos passados, agora o desafio é achar fósforos, já que o fogão é elétrico e a maioria da comida consumida é congelada e preparada no microondas, novamente lá no fundo do armário encontra uma caixa com poucos exemplares.

Acende a chama, surge um lampejo de pensamento, sacode a cabeça, reflete como seria bom ter alguém com quem conversar, alguém com quem se distrair – Será que seria indelicado ir puxar conversa com o vizinho? Acho que sim… Ele tem família, filhos pequenos… Melhor não incomodar… – No andar mais alto do prédio, um Himalaia urbano de isolamento, Caio suspira, respira fundo, sem ocupação a mente não sossega, vagueia através do espaço infinito e se depara com o vazio.

The lunatic is in the hall… The lunatics are in my hall…

Angustiado, olha  para um lado, olha para o outro, nem sinal da eletricidade regressar. – Não acredito que a energia ainda não voltou… Melhor dormir… Não tem outra opção… – Prepara a cama, posiciona a chama da vela num criado mudo próximo a cabeceira, deita-se fecha as pálpebras. Vira para esquerda, vira pra direita, fica de bruços, de barriga pra cima, de ponta cabeça, não há solução.

The lunatic is in my head… The lunatic is in my head…

Os pensamentos aparecem com toda força, as reflexões não cessam. O coração, que é soberano e é senhor, finalmente pode ter seus sussurros ouvidos no breu e na quietude de um blecaute. Insônia. Enfim está a sós, sua única companhia é si mesmo. Não há escapatória. Se torce e contorce estatelado na cama, o travesseiro parece pedra. Insônia.

I’m so tired… I haven’t slept a wink… I’m so tired… I don’t know what to do… I’m so tired… My mind is set on you…

But it’s no joke, it’s doing me harm, you know I can’t sleep, I can’t stop my brain, I’m going insane… 

You know I’d give you everything I’ve got for a little peace of mind…

Busca uma coberta, muda o travesseiro de lado, não há meio de ficar confortável. As lembranças aparecem, a solidão grita, berra em cinco mil alto falantes. – Calmantes!!! Um calmante certamente será a solução para uma boa noite de sono… – Caio sai a procura do remédio, porém a cartela está vazia. Vislumbra rapidamente a tv e o celular absolutamente desligados (You re-arrange me ’till I’m sane…).

Da janela do quarto vislumbra a lua minguante (the great gig in the sky…)… Lembra-se então de uma ocasião de lua nova, sonhos de uma noite de meia-estação (hearts and thoughts they fade, fade… away…)… Caio é embalado pelo rememorar detalhado de fatos pretéritos. Contudo, a memória e melodia findam abruptamente, no corte dos vários laços que ele mesmo rompeu – Eu sou só uma vítima dos acontecimentos… As consequências não me são justas… – Tenta si convencer, justificar, argumentar… Afasta de pronto as lembranças, novamente sobrou a escolhida solidão, agravada por um blecaute…

You lock the door and throw away the key… There’s someone in my head but it’s not me…

Não adianta conversar com nenhum ancestral… Frente a janela Caio observa o quarto minguante – Aposto que os tripulantes da Apollo 12 não tais lacunas… – sentia-se como Ismália – Mas… Será que a bandeira está mesmo lá fincada? Será? Será…? Quem pode responder essa charada? Quantas dúvidas, pensamentos, sentimentos, memórias… Que desconforto lidar com tudo aquilo… Fatos passados, sem importância… – Será? Queria a lua do céu, queria a lua do mar.

I’ll see you on the dark side of the moon…

Num último recurso de distração, foge, volta seus olhos para a vela, acompanha a chama, nem pisca. Esvair as memórias, ocupar os pensamentos, ocultar os sentimentos… A chama apaga-se… Está a sós, com sua história, com sua memória, com seus pensamentos, com seus sentimentos… Está a sós… consigo.

O resto é silêncio…

[author image=”http://oi59.tinypic.com/md2p28.jpg” ]Isabela Abes Casaca é graduanda em Direito e integrante do movimento Novo Ágora. Considera-se escritora amadora.[/author]

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui