Colunas

Música e mediocridade – por Dori Carvalho

Dori Carvalho é poeta, escritor e animador cultural.
Escrito por Redação II

Esses pagodinhos, esses sertanejinhos, esses breguinhas, esses gospelzinhos, esses funkinhos, não são ruins porque têm músicas pobres, letras pobres, intérpretes pobres…

São ruins porque são medíocres nas ideias, nos conceitos, na compreensão do que é amor, do que é sexo e sexualidade, desejo, paixão, do que são as relações afetivas, com suas perdas e danos, suas alegrias e desejos, do que são as separações e traições. São a tradução e a narrativa dos cotidianos vazios e banais de seus compositores.

Não há criação artística, não há riqueza humana nem grandeza de sentimento.

O que há é a vulgarização da vida em versos de “pé quebrado” em dois três acordes e narrativas simplórias.

Talvez, por isso, caiam tão bem nos ouvidos de um povo acostumado a receber o resto, as migalhas culturais, tão afeito a assimilar o que é repetitivo e simples. Não há invenção, não há originalidade.

Dori Carvalho é poeta, escritor e animador cultural.

Não há descoberta nem busca.
São patéticos artistas, medíocres ganhando dinheiro com a pobreza musical.

Somos o país mais rico musicalmente, com talentos grandiosos, do rock ao samba, no entanto, o que ouvimos na maioria dos meios de comunicação é o que de mais pobre se faz na música brasileira.

Como sabemos gostos são construídos, juntando-se a isto os mesquinhos interesses financeiros, com lucro rápido e fácil, então, temos um terreno fértil para o florescimento do que há de mais pobre no mundo musical: o sucesso fácil e momentâneo.

É melancólico. Ver um povo tão rico artisticamente sendo tão desprezado.

Arte que não eleva o espírito humano, não inquieta, não inova ou surpreende, que não discute a vida, na sua pequenez ou grandeza, no que tem de sublime ou ridículo, pode ser qualquer coisa, negócio, lucro… menos arte.

Antes que digam: não gosta, não ouça – lembro que a audição é um dos sentidos que não controlamos.

Nas ruas, nos vizinhos, nos carros… tudo nos obriga a ouvir o lixo que tomou conta do país.

É um tempo de trevas, obscurantismo, mau gosto.

Um país onde nasceram, de Chico Buarque a Tom Jobim, de Noel Rosa a Caetano Veloso, Vinícius de Moraes a Zeca Baleiro, de Gilberto Gil a Djavan, Dorival Caymmi a Milton Nascimento, Marisa Monte à Adriana Calcanhoto, Dolores Duran a Rita Lee, não pode e não merece passar pelo que está passando.

A mediocridade não pode vencer. A música que se divulga e ouve-se, hoje, no Brasil, é reflexo da escuridão política e estética em que vivemos. É a miséria humana.

*Dori Carvalho é poeta, escritor e animador cultural.

Comentários

comentários

Deixe seu comentário