TCEAM
Início Colunas Previdência social: a vitória conduz a um jogo mais complexo

Previdência social: a vitória conduz a um jogo mais complexo

Clemente Ganz Lúcio é Sociólogo, diretor técnico do DIEESE, membro do CDES

Por Clemente Ganz Lúcio

O jogo social é composto por fenômenos, interesses e movimentos que formam situações contraditórias e conflituosas e o resultado é sempre inédito, imprevisível e sem fim: o jogo social é história e luta.


A importante vitória do movimento sindical ao barrar a votação da reforma da previdência deve ser compreendida como um feito histórico de grande envergadura. Isso porque se deve considerar o contexto adverso das inúmeras lutas realizadas (reforma trabalhista, teto do orçamento público, desestatização, pré-sal, desemprego, entre outros), a gravidade da crise econômica e política, as divergências existentes no interior da organização sindical e o ataque que sofrem os trabalhadores e suas entidades.

O resultado foi conquistado com movimentos históricos como a greve de abril, a Marcha dos 150 mil à Brasília, com as mobilizações nos aeroportos, no Congresso, nas cidades e no campo. A organização sindical se fez movimento. O resultado é também fruto da capacidade de intervir no debate público com conhecimento crítico e propositivo, além das estratégias bem sucedidas de comunicação. A vitória faz parte da contínua caminhada de quem luta e deve significar capacidade para reunir forças para continuar o jogo social, inclusive na questão da previdência social.

O ano de 2018 marcará a história da nação e será decisivo para orientar o nosso futuro. As eleições têm a tarefa de costurar o tecido social e político rompido em 2015 e, colocarão as inúmeras e profundas reformas em debate deliberativo pelo voto. Será um ano politicamente quente, no qual forças poderosas provocarão tentarão interditar o necessário debate propositivo sobre as grandes questões que darão rumo ao nosso futuro.

Clemente Ganz Lúcio é Sociólogo, diretor técnico do DIEESE, membro do CDES

Devemos comemorar a vitória da luta e da unidade na diferença. Mas, desde já, reconhecer o papel decisivo que terá, neste ano, o movimento sindical para promover o debate político, com as questões que interessam aos trabalhadores. Nossa intervenção deve ser crítica e propositiva, com projetos e soluções, indicando a agenda e o conteúdo das reformas, a partir da perspectiva do trabalho e dos trabalhadores.

As mudanças que estão em processo na economia capitalista são profundas, as transformações demográficas criarão uma outra sociedade; a tecnologia, a comunicação e a inteligência artificial alteram radicalmente aquilo que conhecemos como emprego e sociabilidade. Disso decorre uma agenda complexa e desconhecida para ser enfrentada pelos trabalhadores.

A reforma da previdência voltará na agenda de 2019 e por isso deve estar no debate eleitoral. Por quê? Porque há mudanças demográficas profundas; porque o sistema de financiamento da previdência social precisa ser reorganizado como parte de uma reforma tributária mais ampla; porque é preciso celeridade para cobrar os devedores, etc. Entretanto, a questão central é que os efeitos da reforma trabalhista sobre o mercado de trabalho inviabilizarão o sistema de repartição da previdência social financiada sobre a folha de pagamento. Mais ainda, a reforma trabalhista é a expressão institucional das profundas mudanças na base da organização econômica da produção, da distribuição, do emprego e dos salários.

Insisto: a fundamental vitória do momento deve-nos levar a compreender a complexidade da situação e da agenda que temos pela frente. Promover e participar do debate propositivo; construir capacidade institucional para abrir e sustentar o diálogo social; e, práticas políticas que recepcionam e conduzem as forças sociais e econômicas para acordos sociais, no espaço das contradições e dos conflitos. Só assim, a nação retoma sua capacidade soberana de ser protagonista do seu destino.

*Clemente Ganz Lúcio é Sociólogo, diretor técnico do DIEESE, membro do CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e do Grupo Reindustrialização

Artigo anteriorConheça a misteriosa nuvem que matou milhares de pessoas e animais na África
Próximo artigoFeriado da Independência deve movimentar 1,05 milhão de passageiros

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Correio da Amazônia
Visão Geral de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.