Rede de relação – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Meus filhos ainda pequenos, traçavam os caminhos mais difíceis. Limitado à linearidade de minha lógica, não entendia, e reclamava, quando eles subiam e desciam nas calçadas ou pelos lugares mais íngremes e perigosos, andando em círculos… Achava que eles complicavam tudo, quando podiam percorrer caminhos simples e diretos. Do alto de minha ignorância não compreendia o que se passava naquelas cabecinhas, desestimulando a aprendizagem que nelas se processava, para a complexidade da vida adulta. As crianças não enlouquecem com a mescla que fazem entre o real e o imaginário. Nós, adultos, é que e aplicamos a lógica formal em nossas vidas. No nosso imaginário, porém, sabemos que, sem trama, não há novela. Conhecedor e artista dessa dedução, o autor de novelas percebe, melhor que ninguém, a luta pelo reconhecimento e pelo poder, bem como a ânsia de felicidade e de amores impossíveis, que habita o interior das pessoas. E, quando permite que fulano case com cicrana e sejam felizes para sempre, decreta o fim da novela.


Nossa vida é constituída por uma rede de relações. Suponhamos o caso mais comum, de fazermos uma clivagem nessa relação, e estabelecemos um mundo, rígido e louco.

Exemplo de quem trabalha numa organização, pública ou privada. A pura e simples aplicação da lógica linear à vida dessas pessoas, e de suas relações, cobra um preço muito alto para a sanidade delas e para a eficiência do próprio sistema. Vistas apenas como peças descartáveis, perdem em criatividade e produtividade. Instala-se, então, um círculo vicioso: improdutivas e descomprometidas porque desrespeitadas em sua dignidade e desrespeitadas porque improdutivas e descomprometidas.

Por onde começar o rompimento dessa lógica que mata as organizações? Pela quebra do paradigma da simplicidade da vida. A vida é complexa e continuará assim, por mais que queiramos modificar seu perfil. Precisamos aprender a buscar o melhor a partir dos recursos que temos. Não podemos idealizar um ser humano inexistente, desprovido de conflitos, sonhos e interesses. Da mesma forma que os velejadores, precisamos despertar para a necessidade de trabalhar a energia que procede de ventos contrários. A força da gestão estará no manuseio adequado das velas e não na mitológica manipulação dos ventos.

A quem caberá a iniciativa em favor do comprometimento e da produtividade nas organizações? Literalmente, a todos. O êxito ou o fracasso delas será, também, o de seus integrantes. Necessário ater-se à delicadeza do material humano e a sua sensibilidade ao que há de mais sagrado entre seus valores: o respeito à própria dignidade. Mas que seja recíproco. Um valor que não tem preço. Kantianamente, tratar e ser tratado como fim em si mesmo, e nunca como objeto. Uma exigência que se aplica a chefes e a subordinados. Indistintamente. Preservada essa dimensão, do respeito, todas as outras questões assumirão uma menor amplitude.

A ética na gestão não poderá ser apenas normativa, apontando o certo e o errado no comportamento e nas atitudes das pessoas. Deverá superar o paternalismo, justificável apenas na relação entre pais e filhos (pequenos). E primar pelo respeito à autonomia moral dos indivíduos, sejam eles chefes ou subordinados. Nesse novo paradigma, os verbos conquistar, argumentar, convencer, coordenar, deverão prevalecer sobre ordenar, comandar e obedecer. A obediência cega não gera talentos, o respeito às diferenças, os estimula.

A uniformidade não favorece o crescimento pessoal nem organizacional. Tampouco o egoísmo e o descomprometimento. É preciso aprender com o mundo lúdico das crianças e com sua liderança espontânea: singulares, produtivas, criativas e comprometidas com o que fazem, mesmo quando, a nossos olhos, andam em círculo. E rever valores, abrindo-se à contribuição do outro e dos outros, para a conquista dos objetivos que deverão ser de todos.

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