Indústria do Amazonas reage à crise do Covid-19  por – Osíris Silva

Escritor e economista Osíris Silva/Foto: Divulgação

No último dia 25 comemorou-se  o dia nacional da indústria. Na verdade, pouco se tem a enaltecer sobre um setor que vem enfrentando há décadas forte processo de desindustrialização e, consequentemente, perda de  importância relativa no contexto das atividades econômicas do país.

A performance do setor industrial efetivamente se distancia velozmente dos bons tempos quando carro chefe da economia nacional. Dados do IBGE apontam que, comparativamente ao PIB brasileiro, a produção industrial caiu de 21,4% em 1970, para 15% em 2000 e 11% em 2019.

Em sentido oposto, o PIB do agronegócio cresceu, em 2020, um recorde de 24,31%, segundo cálculos do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) da Esalq/USP e da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), desempenho que elevou  a 26,6% sua participação no PIB brasileiro, contra 20,5% em 2019.

Tomando-se por base o último trimestre de 2020, período fortemente impactado pela pandemia do novo coronavírus, o PIB do do Amazonas mantém-se na 16a. posição, apenas superando os dos menores estados, como Acre, Alagoas, Amapá, Maranhão, Paraíba, Piauí, Rondônia, Sergipe, Tocantins, Rio Grande do Norte e Roraima.

No entanto, de acordo com o presidente da Federação das Indústrias do Amazonas (FIEAM), Antonio Silva, os resultados do Polo Industrial de Manaus (PIM) em 2020 “mostraram o quão eficientes podemos ser economicamente, com resultados impressionantes, apesar da precariedade da situação, enfrentando com equilíbrio e dentro das disponibilidades possíveis”.

O setor produtivo, afirmou, “teve que se reinventar para se adaptar à nova realidade, com destaque ao operariado e a um corpo administrativo profissional qualificado e construtor de soluções”, salientando que as empresas, motivadas por “um propósito que vai além do lucro, desenvolveram ações humanitárias de porte, visando ajudar quem mais precisava com distribuição de cestas básicas, kits de higiene pessoal, equipamentos, máscaras e álcool em gel”.

Os dados conjunturais do Amazonas, no conjunto do país, todavia, revelam importantes pontos de fragilidade: Enquanto as exportações de produtos industrializados representam apenas 0,8% do total nacional, o PIM, isoladamente, contribui com 95,8% das exportações efetuadas pelo Estado, 75,4% de produtos manufaturados, confirmando, por conseguinte, a forte concentração da economia amazonense na capital do Estado. Nem de longe, um dado conjuntural plausível.

Para Wilson Périco, presidente do CIEAM,  precisamos “aplicar as riquezas geradas no Polo Industrial de Manaus – fundos, contribuições e parte dos lucros em P&D&I – na bioeconomia, piscicultura, silvicultura, fruticultura, mineração e ecoturismo, essencial à consolidação do desenvolvimento e a reverter os constrangedores IDHs de nossa gente, de sorte a criar emprego, proteção florestal e um novo ciclo de pujança econômica”. De forma constrangedora, salienta, “vemos riquezas produzidas no Amazonas, um estado geograficamente isolado e socialmente empobrecido, transferidas aos cofres da União sem retorno previsível”.

Segundo Périco, “como diversificar e interiorizar nossa economia sem poder contar com os recursos que poderiam inaugurar uma nova era de prosperidade e superar essa vergonhosa vulnerabilidade social de tantos excluídos?” Somos, afinal, observa, “proporcionalmente o Estado que menos recursos recebe da União e o quinto que mais contribui, a despeito da Lei mandar que essa dinheirama seja usada na região, o que não se verifica”.

Além do mais, ressalta: “Não há como diversificar nossa economia sem infraestrutura adequada de transportes, energia, comunicação e educação de qualidade, a despeito de termos recolhido, no período de 2001 a 2018, R$ 110,9 bilhões de impostos aos cofres federais, deixando apenas R$ 38,3 bilhões para aplicação em programas de combate à redução das desigualdades regionais”. Há de fato pouco a celebrar, muito mais a construir.

Manaus, 31 de maio de 2021.

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