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Núcleo da UFAM discute agronegócio e cinema

Filme Beyond Fordlândia/Foto: Divulgação
Redação I
Escrito por Redação I

O Núcleo de Antropologia Visual da Universidade Federal do Amazonas promoveu, quarta-feira (13), uma sessão do filme Beyond Fordlândia. A produção faz um apanhado histórico das incursões econômicas na Amazônia desde 1927, ano que marcou o início das tentativas de Henry Ford para plantar borracha na Amazônia, até a contemporânea cultura de soja na região.

O cientista Marcus Barros, diretor do Ibama durante o período de 2003-2007 e ex-reitor da Universidade, saudou os presentes e fez a abertura do evento, que lotou o auditório RioNegro, no campus da UFAM. Barros integra o elenco de pesquisadores, jornalistas, ativistas, moradores locais e agricultores que cederam entrevistas para o filme.

Beyond Fordlândia surgiu em paralelo a uma pesquisa da Universidade do Wisconsin (UW-Madison, EUA), sobre a representação Amazônia na literatura brasileira do século XX, realizada por Marcos Colón, do Instituto Nelson de Estudos Ambientais da UW. O professor comenta que a ideia surgiu em meio à leitura de “O turista aprendiz”, de Mário de Andrade, em que o poeta modernista mencionava uma visita a Fordlândia, que hoje é distrito do município de Aveiro (PA).

“Exibir o filme em um ambiente como a Universidade Federal do Amazonas é muito importante, porque dá voz a conceitos que podem muitas vezes soar abstratos, como conservação florestal e os desafios recentes que a Amazônia tem enfrentado”, avalia Colón, que já participou de outro cine-debate sobre o filme promovido pelo Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA).

Filme Beyond Fordlândia/Foto: Divulgação

Conjuntura em debate

O professor do departamento de História da UFAM, Davi Avelino, foi um dos organizadores do evento e apontou a importância do momento para o debate.

“As intervenções problematizaram a atualidade do documentário, no exato momento em que a Renca [Reserva Nacional de Cobre e Associados] está sendo liberada para exploração de minério. Trata-se de um passado que não quer passar, no sentido em que o modelo implementado por Ford continua, sob muitos aspectos, ainda em voga”. O professor destacou a construção da narrativa do filme através de depoimentos com posicionamento marcado e uma crítica ampla do modelo que atividade econômica posto para a região.

Com foco nos impactos ambientais e humanos provenientes do agronegócio, o filme põe na balança os impactos sociais e ambientais em contraponto à monocultura da soja, que está consolidada na porção paraense da Floresta. Alexandre Cardoso, doutorando de História Social pela Universidade de São Paulo (USP), destacou pontos da exploração econômica predatória.

“Acredito que uma característica presente nas várias fases de expansão do capitalismo na Amazônia é a ausência de interlocução com as demandas socioeconômicas das comunidades locais tendo como ápice a mineração e o agronegócio”, comentou o pesquisador, cujo tema de estudo consiste nas frentes de expansão econômica na Amazônia no século XX. Cardoso enfatizou que as atividades são bastante agressivas e lucrativas, mas geram pouca ou nenhuma riqueza para a área e as regiões exploradas.

A estudante da UFAM Jainne Bandeira endossa o posicionamento do pesquisador. Aluna do curso de História, entende que a jornada de Ford na Amazônia representou uma tentativa de imputar a lógica de produção capitalista – de maneira arbitrária – à Floresta e às pessoas de Fordlândia e Belterra.

“Como bem assinala o documentário, a produção de soja era algo tão importante quanto a borracha para ele [Ford]. Na visão dos grandes empreendedores, tudo que pode gerar lucro é digno de investimentos exorbitantes em tecnologia e e exploração, como se faz na soja e no agronegócio”, reflete a estudante.
Jainne também aponta que a isenção fiscal dada à cadeia produtiva para exportação também é prejudicial. “O que resta, além dos prejuízos à saúde por conta dos agrotóxicos, é o impacto na vida das pessoas. Temos o caso da Renca, em que o governo afirma que é preciso regulamentar a atividade na região sob o pretexto dos benefícios econômicos e da atividade sustentável”, completa.

A discussão sobre a Reserva está por conta de um Comitê especial – até o momento sem a participação da sociedade civil – criado para o assunto após críticas da sociedade aos decretos do Planalto publicados nos dias 22 e 28 de agosto para extinção da Renca.

Beyond Fordlândia ainda não estreou oficialmente no Brasil, mas está na disputa de festivais internacionais e já conquistou o prêmio de excelência do Impact Docs Awards 2017.

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