Pôr do sol – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

Ontem, no final de tarde olhei para o firmamento diferente do que diariamente olho e vi no horizonte a policromia tomando conta da natureza, enfeitando-a com mesclas de vermelho, raios laranja iluminados, tons de cinza sisudo, e traços lilases. É bonito de se ver este quadro em meio ao qual o sol se despede. Deslizando para o outro lado da Terra, deixava a impressão de seu dever cumprido: havia iluminado o dia. A paisagem rapidamente se desfez e guardou o sol no manto da noite.

É generoso o espetáculo que o entardecer proporciona. Sensibilidade, serenidade e intimidade, nos possibilitam descortinar a beleza do fim do dia, como também perceber as faces encantadas do final de um percurso. O pôr-do-sol é bonito, porque é efêmero. Se fosse permanente nos cansaria. Nada permanece belo definitivamente. Tudo pede para terminar, até mesmo um beijo ardente. A vida pulsa em direção ao fim. Imaginemos por um instante, que o sol jamais vai se pôr, ou que nossa vida jamais terminará. Como nos comportaríamos, como nos sentiríamos em relação a este dia e-t-e-r-n-o e em relação à vida sem fim? O que neles poderíamos apreciar em sua definitiva repetição? É a alternância que nos possibilita tanto o amanhecer como o anoitecer.

Assim também é a vida. Ela é bela em sua diversidade e temporalidade. É nessa provisoriedade que nos esforçamos para lhe dar sentido e estética. A vida também entardece. Inevitavelmente caminhamos todos nessa direção, e, como o sol, nos guardaremos no manto da noite. A sombra que avança para a noite nos dá notícia do tempo; do tempo que passou e do tempo que está aí, diante de nós. Descobrir esse tempo tem algo de medo, mas também de parto, de nascimento.

É no tempo que dispomos que teremos de construir sentido para nosso estar-no-mundo. Não importa quanto tempo teremos, importa torná-lo precioso. Isso se faz renascendo em direções cada vez mais humanizadas e significativas. O pôr-do-sol tem cheiro de saudade, sim, mas é um privilégio ter do que sentir saudade. “O que a memória ama, fica eterno” diz Adélia Prado. Fica eternizado em nossa memória, aquilo que construímos amorosa, ética e dignamente em nosso existir.

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Consultor.

Convivemos com o mito da “eterna juventude”. Esse mito nos aliena quando nos submetemos aos imperativos da cultura que superestimam o visual, o lado de fora, o padrão teen de ter um corpo jovem e bonito. Mas haverá uma “eterna juventude” interior se mantivermos uma atitude aberta para a vida, se renovarmos nosso gestual humano, se atualizarmos o gozo de estar vivos, se ressignificarmos sempre nossa presença no mundo.

É infinita a possibilidade de se rever os próprios gestos e crescer em sabedoria. Assim, o corpo pode estar maduro e portar uma alma menina. Essa vida interna é nutrida pelo encontrar-se e encontrar os outros, pelo produzir e participar da vida em sua diversidade. Como o pôr do sol, o entardecer da vida pode ter muitos encantos.

A construção que fizermos nessa passagem pela vida, é que dará sustentabilidade, alegria e beleza ao amadurecer. Isso não se improvisa, a gente constrói desde a infância, porque não há alegria do nada, mas do saldo de uma construção cuidadosa do sentido de nossa vida. Os valores que alicerçamos, darão policrômicos com os quais poderemos colorir o envelhecer. Isso não significa ausência de sofrimentos e inquietações no trajeto do existir.

No cenário do entardecer, o pôr do sol fica mais bonito quando há nuvens a transpor, o que lhe proporciona uma beleza inédita. Quanto mais nuvens, maior a beleza. As nuvens são como nossas angústias, elas apenas tentam anuviar nossa alegria, mas se tentarmos compreendê-las, se pudermos acolhê-las, se soubermos lidar com elas, aprenderemos a encontrar força e confiança para a experiência única e fantástica de estarmos no mundo, de forma bonita, corajosa e construtiva. Acho que esta manifestação seja talvez a visão mais amadurecida, ou quem sabe, a certeza da chegada do entardecer.

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