Projeções de sucesso de Marina são precipitadas, dizem analistas


Marina luta contra obstáculos para a campanha e a "fragilidade do seu partido".
Marina luta contra obstáculos para a campanha e a “fragilidade do seu partido”.

É preciso cautela para analisar pesquisas eleitorais que apontem a ida da ex-senadora Marina Silva para o segundo turno da eleição presidencial, já que os resultados podem refletir efeitos emocionais passageiros gerados pela morte do ex-candidato à Presidência Eduardo Campos, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.
Uma pesquisa do Datafolha divulgada nesta segunda-feira sugere que Marina, que na quarta-feira deverá ser anunciada como a nova candidata do PSB à Presidência, teria 21% dos votos no primeiro turno da eleição.
O desempenho a colocaria em empate técnico com o mineiro Aécio Neves, candidato do PSDB, que teria 20% das intenções de voto. Segundo a pesquisa, a presidente Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, lideraria a corrida, com 36%.
Se Dilma e Marina fossem para o segundo turno hoje, segundo o Datafolha, ocorreria um empate técnico – a ex-senadora teria 47% dos votos, contra 43% da presidente. Numa disputa com Aécio, Dilma venceria por 47% contra 39%, de acordo com a pesquisa.
Cientistas políticos avaliam, no entanto, que as projeções de votos para Marina podem refletir uma “comoção temporária com a morte de Campos”, e que a ex-senadora enfrentará importantes obstáculos para consolidar sua candidatura e concorrer com chances de vitória.
Recall
Para Roberto Romano, professor de filosofia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo), o desempenho de Marina reflete uma espécie de “recall”.
“Ela foi muito bem votada em 2010, é figura conhecida e tem essa aura de alguém que não iria repetir procedimentos perniciosos da política nacional”, disse ele à BBC Brasil.
Segundo Romano, eleitores do centro-sul do Brasil têm a tendência de votar em candidatos “que supostamente vão modificar a estrutura moral da política brasileira”.
“Foi assim com Jânio Quadros, Fernando Collor de Melo e o PT – ainda que nos três casos essa expectativa tenha se mostrado ilusória”.
Para o professor, Marina também parece contar com o apoio de boa parte dos manifestantes de junho de 2013, sobretudo os mais jovens, que estariam descontentes com as opções eleitorais até então colocadas e pretenderiam anular os votos.
Ainda assim, Romano diz que só nas próximas semanas, passado o efeito da morte de Campos, será possível projetar com mais precisão as chances da acreana.
Propaganda eleitoral

Para Antonio Carlos Mazzeo, professor em Teoria Política da Universidade Estadual Paulista (Unesp), um importante obstáculo para a campanha de Marina é a “fragilidade” de seu partido em comparação com as máquinas partidárias por trás de seus principais adversários, Dilma e Aécio.
Além disso, diz ele, a ex-senadora terá muito menos tempo de propaganda eleitoral gratuita que seus maiores concorrentes. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Marina contará com apenas 2 minutos e 3 segundos nas propagandas exibidas às terças, quintas e sábados, enquanto Dilma terá 11 minutos e 24 segundos e Aécio, 4 minutos e 35 segundos.
A duração da propaganda é proporcional ao número de deputados federais dos partidos que apoiam as candidaturas.
“O tempo de TV vai influenciar o desempenho de Marina, assim como suas entrevistas e participação em debates”, diz Mazzeo.
Para Maria do Socorro Braga, professora de ciência política da USP, para resistir aos ataques dos adversários, Marina terá de apresentar um programa de governo que satisfaça os eleitores que desejam mudanças.
“Ela só vai conseguir ter consistência e manter o eleitorado se esse programa estiver de acordo com o que estão reivindicando.”
Roberto Romano, da Unicamp, diz ainda que, se conseguir superar todos esses obstáculos, Marina terá testada sua personalidade.
“Ela tem um perfil bastante autoritário, o que é uma virtude dela mas também um problema.”
Segundo Romano, Marina é capaz de manter princípios e definir suas ações com base em doutrinas, mas “na política não há apenas uma ética ou moral”.
“A política é a arte de adequar as múltiplas perspectivas éticas. E ela parece muito rígida nessa linha”, diz.

 

(BBC Brasil, em Brasília)

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