
O Brasil deve enfrentar ao menos seis ondas de calor nos próximos meses, segundo análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O número pode ser ainda maior: durante o último El Niño, o país registrou nove episódios.
Uma onda de calor ocorre quando, por pelo menos três dias consecutivos, as temperaturas máximas e mínimas ficam muito acima da média. A previsão é de um Super El Niño, entre os mais intensos já registrados, com efeitos diferentes pelo país, mas um ponto em comum: o calor.
A estimativa foi baseada em 47 anos de registros de temperatura em anos de El Niño. Para a pesquisadora do Cemaden Mabel Calim Costa, a frequência pode aumentar com a intensificação do fenômeno. “Essa é uma média, mas vimos no último El Niño o país viver nove ondas de calor”, afirma.
Calor mais frequente e abrangente
Os dados mostram que as ondas de calor estão mais frequentes e atingem áreas cada vez maiores. Nas décadas de 1980 e 1990, os episódios eram mais raros e concentrados, principalmente no Nordeste. Desde 2010, e com maior intensidade após 2020, passaram a alcançar praticamente todo o país ao mesmo tempo.
O fenômeno costuma ser provocado por áreas de alta pressão que permanecem sobre uma região por vários dias, bloqueando nuvens e chuvas e mantendo uma massa de ar seco e quente. Com o solo mais seco, o aquecimento se intensifica.
Segundo Mabel, as mudanças climáticas aumentaram a temperatura de base do planeta, fazendo com que esses episódios atinjam níveis cada vez mais extremos.
Entre agosto e dezembro de 2023, o Brasil registrou nove ondas de calor, o maior número desde 1979 e mais que o dobro da média nacional, de quatro episódios.
Ainda não é possível determinar quando ocorrerá a primeira onda deste período. As previsões para setembro, porém, indicam temperaturas até 3°C acima da média em grande parte do país. Segundo o meteorologista Marcelo Seluchi, os primeiros efeitos do El Niño devem ser sentidos já no mês, com calor intenso no Centro-Sul e chuvas no Sul.
Seca e incêndios
O calor tende a agravar a seca, já que aumenta a evapotranspiração e reduz a umidade do solo. Dados do Cemaden apontam que 157 municípios brasileiros já enfrentam seca severa, principalmente no Norte e Nordeste. Tocantins lidera, com 50 cidades, seguido pela Bahia, com 18.
O calor também eleva o risco de incêndios. Um levantamento do CPTEC/INPE, Inmet e Funceme aponta 560 municípios em nível alto de risco, abrangendo mais de 3 milhões de km² — cerca de 35% do território nacional. A área mais vulnerável fica entre a Amazônia e o Pantanal.
Para reforçar o combate às queimadas, o governo criou, em maio, um gabinete de crise para responder ao El Niño e mobilizou mais de 4,6 mil brigadistas federais.
Impacto nos preços
Os efeitos também podem chegar ao bolso. Alimentos podem ficar mais caros após choques climáticos provocados pelo El Niño, com pico de preços em até seis meses. Carnes e hortaliças estão entre os produtos mais afetados.
Em um cenário de El Niño forte, os alimentos in natura podem subir 19,9%, enquanto a alimentação no domicílio teria alta de 6,32%.




