Apoio do Judiciário a Haddad mostra que o PT é necessário à democracia

Apoios de ministros do STF, são importantíssimos para a manutenção da democracia no Brasil - foto: 247

Entre inúmeros apoios que Fernando Haddad recebeu nos últimos dias de campanha, nenhum é tão significativo em termos políticos como a adesão de Joaquim Barbosa e Rodrigo Janot.

A importância dos dois na história recente do país, quando o Partido dos Trabalhadores foi transformado em troféu principal da criminalização de nosso sistema político, e por essa razão chegou a ter sua extinção anunciada várias vezes, não pode ser minimizada.

No STF, Joaquim Barbosa foi o juiz-relator da AP 470, também conhecida como Mensalão. Pela primeira vez, o Partido dos Trabalhadores foi classificado como “organização criminosa” e, 26 anos após a anistia a presos políticos aprovada no final do regime militar, a geração que fundou o Partido, formada por José Dirceu e José Genoíno, cumpriu pena de prisão em sentenças criminais.

Janot foi o Procurador Geral da República que criou a força-tarefa de Curitiba, um dos pilares principais da Lava Jato, operação que produziu a sentença que condenou Lula, levou-o à prisão e impediu sua presença na campanha presidencial de 2018, onde iria entrar como um nome imbatível. Conduzido à cela de Curitiba quando haviam se passado sete anos e quatro meses de sua saída do Planalto, Lula é um caso único de ex-presidente condenado e encarcerado em 129 anos de república.

Quando o apoio de Joaquim ao adversário foi anunciado, Bolsonaro fez questão de manifestar seu desapontamento. “A gente fica sem entender”, disse, para acrescentar que Joaquim Barbosa fez “um excelente trabalho no STF” ao colocar petistas como José Dirceu e José Genoíno na cadeia. “Agora ele declara apoio a Haddad, do PT? A gente sabe que, se porventura, o PT voltar um dia, essa turma toda, José Dirceu, Genoíno entre tantos, voltarão e aquele esquema que foi desmantelado lá atrás por Joaquim Barbosa volta a ocupar o centro da política brasileira”.

Apoios de ministros do STF, são importantíssimos para a manutenção da democracia no Brasil – foto: 247

A reação de Bolsonaro confirma seu compromisso zero com o regime democrático, que ficou evidente para os 147 milhões de eleitores brasileiros a partir daquele tenebroso anúncio de encarceramento de adversários anunciado no domingo, 21, no qual o próprio Haddad já estava incluído como alvo:

— Seu Lula da Silva, se você estava esperando o Haddad ser presidente pra assinar o decreto de indulto, eu vou te dizer uma coisa: você vai apodrecer na cadeia. Brevemente você terá Lindbergh Faria pra jogar dominó no xadrez. Aguarde. O Haddad vai chegar aí também. Mas não será pra visitá-lo, não. Será pra ficar alguns anos ao teu lado.

Nos tempos de ministro-relator da AP 470, Joaquim Barbosa deixou a marca de uma postura postura implacável. Foi assim em defesa da dosimetria de penas fortes para provas fracas, e também na defesa do direito do STF agir acima da Constituição, com o argumento de “a Constituição é aquilo que o Supremo diz que ela é”.

Ontem, seis anos depois da AP 470, cinco dias depois do discurso de Bolsonaro, Joaquim Barbosa ofereceu um argumento simples e direto para votar em Haddad: “Votar é fazer uma escolha racional. Pela primeira vez em 32 anos de exercício do direito de voto, um candidato me inspira medo. Por isso, votarei em Fernando Haddad”.

Momentos depois, foi a vez de Rodrigo Janot se manifestar sobre a eleição: “Não posso deixar passar barato discurso de intolerância e etc. Por exclusão, voto em Haddad”, escreveu.

Assim, já na reta final da campanha, chegamos a um ponto central da crise política do país e da eleição de 2018.

Você pode ter a opinião que lhe parecer mais coerente sobre a Lava Jato e a AP 470. Pode considerar que a judicialização fez uma faxina necessária na política brasileira, sem merecer críticas nem reparos. Também pode achar, como digo em meu livro “A Outra História da Lava Jato, que se trata de “uma investigação necessária que se transformou numa operação contra a democracia”.

Qualquer que seja a sua opinião, no entanto, ninguém pode negar que a judicialização dizimou os grandes partidos políticos, neutralizou lideranças importantes e, com auxílio de veículos de mídia politicamente interessados, ajudou deslegitimar o conjunto de um sistema que, com virtudes e inúmeros defeitos, fez a democracia funcionar sem rupturas pelo mais longo desde 1930. O efeito óbvio desse processo foi a emergência de uma liderança como Bolsonaro, com um programa autoritário e repressivo, com eliminação de direitos dos trabalhadores, cortes nos serviços públicos e privatização de estatais, mesmo essenciais a nosso desenvolvimento.

Nessa conjuntura particularmente difícil, há uma grande ironia nesta história: mesmo tratado como alvo prioritário das investidas judiciais, o Partido dos Trabalhadores é uma força que resiste. TAlvez a única, quando se acompanha o destino medíocre ou mesmo desastrado dos demais partidos de mesma geração, como o PSDB, ou mesmo aqueles que se reproduzem desde o tempo da ditadura, como MDB e DEM. As novidades a esquerda, como PSOL, como a direita, como Novo, tiveram um desempenho simbólico ou nem isso.

O PT foi o mais perseguido e o mais bem sucedido. Apresentou o candidato favorito e, diante do impedimento deste, emplacou um nome que passou ao segundo turno com 4% das intenções de voto e agora lidera uma virada contra Bolsonaro. Embora seja o partido mais atacado, inclusive com a prisão de seu líder e fundador, segue o mais competitivo. Ainda que seja preciso reconhecer o papel fundamental de Lula, cabe registrar uma força coletiva, que nunca perdeu os laços históricos com as grandes da população brasileira.

Na hora em que um antigo presidente do Supremo Tribunal Federal, que representou um poder da República entre 2012 e 2014, diz que vota em Fernando Haddad porque o outro candidato lhe “inspira medo”, é preciso admitir que o Partido dos Trabalhadores assumiu um papel necessário em nossa democracia, mais relevante do que seus adversários reconhecem e mais decisivo do que muitos de seus dirigentes e militantes compreendem.

“A democracia pode ser salva”

*Paulo Moreira Leite é colunista do 247, ocupou postos executivos na VEJA e na Época, foi correspondente na França e nos EUA

 

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