O Estado Leniente – por Flávio Lauria

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Existem coisas pequenas e grandes coisas que levaremos para o resto de nossas vidas. Talvez sejam poucas, quem sabe sejam muitas. Depende de cada um, depende da vida que cada um de nós levou. Levaremos lembranças, coisas que sempre serão inesquecíveis para nós, coisas que nos marcarão, que mexerão com a nossa existência.

Provavelmente, iremos pela vida afora colecionando essas coisas, colocando em ordem de grandeza cada detalhe que nos foi importante, cada momento que interferiu nos nossos dias e que deixou marcas. Marcas como a que estamos sentindo agora com a perda de muitos amigos, amigas, parentes, pela leniência do Estado brasileiro. Um país que perde mil vidas por dia em razão da pandemia, está em guerra cruenta. O número é estarrecedor. Somos o segundo país de uma macabra estatística, computados já os que estão em guerra ou em paz com os demais. Sequer estamos a falar das mortes nos desastres no trânsito, outra tragédia nacional, decorrente do horrendo conúbio entre a imprudência e as péssimas condições de nossas rodovias. Não queremos saber que nível da Federação é responsável pela existência das mortes. Para a população, são todos: União, estados e municípios.

Contudo, causa espécie que o governo federal, em que a maré montante do mortes por coronavirus cresceu assustadoramente, não tenha coordenado com determinação e método um plano nacional de combate a este tipo de pandemia, nem tampouco provisionado, juntamente com estados e municípios, os recursos necessários à manutenção da ordem.

Uma guerra como essa implica pesquisa, metodologia, recursos adequados e ações positivas. O caso do bolsa ajuda, por si só, não é suficiente, atua apenas para amenizar os que estavam sofrendo com a perda dos empregos, mesmo assim precariamente. Havia um expert no governo que tinha um plano de ação muito bom, fruto de anos de estatística, pesquisas e trabalho de campo. Foi-se embora, vitima do Covid. De lá pra cá, nada aconteceu de positivo. Ora, o que desejamos é uma política eficaz de prevenção a esta pandemia, e esta não há. A China, está à frente do Brasil.

A situação está insustentável. Não ficamos sabendo de um caso aqui outro acolá, de tempos em tempos. Todo dia, um parente, um amigo, o amigo de um parente ou o parente de um amigo que se vai, guardando estatística para mais uma morte. São fatos que se tornaram banais. No entanto, a vida, virou uma banalidade. Na luta pela sobrevivência, o certo e o errado igualaram-se e o ter superou o ser. Viver é preciso, seja lá como for. É dizer, o caos social venceu a ordem.

Flávio Lauria é Administrador de Empresas e Professor Universitário

Aos homens de boa vontade, sejam ricos ou pobres, restam a fé na verdade e a esperança em dias melhores. Precisamos de um Cícero moderno para escarmentar no Senado os poderes da República, sempre a repetir suas catilinárias: “Ó governante leniente e frouxo, até quando abusarás da nossa paciência?” E nós, brasileiros, sabemos que sentir falta não é o mesmo que sentir saudade. Somos descendentes de povos que mistura saudade dos mais diferentes lugares. Saudade à brasileira deve ser como o banzo do negro escravo: Sente-se. Alimentamos sempre a esperança de que, após o decurso de uma destas unidades de tempo, a existência melhore e o ser humano se engrandeça. Não poderia ser diferente porque não é possível viver sem esperança. Nem que seja para olhar no horizonte azulado o nascimento de um novo dia, mesmo sabendo que ele se juntará aos outros na eterna cadeia do tempo perene e interminável.

A caminhada é a única certeza que temos. Incerto e cheio de dúvidas é o porto aonde chegaremos na viagem que todos temos de fazer e terminar. Para os racionalistas, este porto é a extinção de tudo. Para os que têm fé, ele é o começo da vida definitiva. Mas a ambos falecem elementos objetivos para comprovar a certeza das duas expectativas. Enquanto isto, o barco desliza inexoravelmente pela superfície da existência, navegando para o destino final, cuja hora a ninguém é dado saber. Diante de tantas incertezas vale a pena viver? Terá um sentido maior a vida humana, além das dificuldades por que todos temos de passar? Não é fácil a resposta e sobre ela se interrogam e sempre se interrogam os filósofos de todos os tempos e escolas.

De onde viemos, para onde vamos e qual o sentido de tanto esforço? A razão e a fé jamais deram uma resposta a estas inquietações que satisfizesse a todos os mortais. Porém uma coisa é certa. O ato de viver nos traz a obrigação de lutar para aperfeiçoamento do mundo no momento em que vivemos. Assim agiram os homens de bem em todos os tempos e em todas as épocas. Também é certo que, com atitudes éticas e solidárias, podemos melhorar a vida de nossos semelhantes e aperfeiçoar as desigualdades sociais, que dão mais a uns do que a outros. E receber do próximo o suprimento das carências que nos afligem. Não podemos fazer uma justiça perfeita, mas podemos realizar com certeza uma justiça possível em nossa passagem pela terra. Apesar do estado leniente, temos que ter fé que temos o pesado fardo de conduzir a existência. Enfim, que a vacina chegue e acabe com esse sofrimento.

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